domingo, 23 de julho de 2017

16º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 13,24-43

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus disse às multidões mais esta parábola:
“O reino dos Céus pode comparar
-se a um homem
que semeou boa semente no seu campo.
Enquanto todos dormiam, veio o inimigo,
semeou joio no meio do trigo e foi-se embora.
Quando o trigo cresceu e deu fruto,
apareceu também o joio.
Os servos do dono da casa foram dizer-lhe:
‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo?
Donde vem então o joio?
Ele respondeu-lhes: ‘Foi um inimigo que fez isso’.
Disseram-lhe os servos:
‘Queres que vamos arrancar o joio?’
‘Não! – disse ele –
não suceda que, ao arrancardes o joio,
arranqueis também o trigo.
Deixai-os crescer ambos até à ceifa
e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros:
Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar;
e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro’“.

Jesus disse-lhes outra parábola:
“O reino dos Céus pode comparar-se a um grão de mostarda
que um homem tomou e semeou no seu campo.
Sendo a menor de todas as sementes,
depois de crescer, é a maior de todas as hortaliças
e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos”.
Disse-lhes outra parábola:
“O reino dos Céus pode comparar-se ao fermento
que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha,
até ficar tudo levedado”.
Tudo isto disse Jesus em parábolas,
e sem parábolas nada lhes dizia,
a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta,
que disse: “Abrirei a minha boca em parábolas,
proclamarei verdades ocultas desde a criação do mundo”.

Jesus deixou então as multidões e foi para casa.
Os discípulos aproximaram-se d’Ele e disseram-Lhe:
“Explica-nos a parábola do joio no campo”.
Jesus respondeu:
“Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem
e o campo é o mundo.
A boa semente são os filhos do reino,
o joio são os filhos do Maligno
e o inimigo que o semeou é o Demónio.
A ceifa é o fim do mundo
e os ceifeiros são os Anjos.
Como o joio é apanhado e queimado no fogo,
assim será no fim do mundo:
o Filho do homem enviará os seus Anjos,
que tirarão do seu reino todos os escandalosos
e todos os que praticam a iniquidade,
e hão-de lançá-los na fornalha ardente;
aí haverá choro e ranger de dentes.
Então, os justos brilharão como o sol
no reino do seu Pai.
Quem tem ouvidos, oiça”.

sábado, 22 de julho de 2017

Pensamentos Impensados

Cortiça
A Lei da Rolha, para os bombeiros, terá sido inventada por Américo Amorim?  

Comisxões
Vai ser criada uma Comissão de Inquérito para averiguar o que fizeram as outras Comissões de Inquérito. 

Tradu...sons
Too late em português é tu leite. 

Falares
Se há políticos que não presam declarações é porque as declarações não prestam.

Diz
Dispensa, digo pensa.
Distraído, digo traído.
Disputa. não digo. 

Armas e canhões asinaláveis
O  Exército devia declarar o valor das armas nos paióis para os ladrões não irem ao engano, como em Tancos. 

Fogos e factos
No tempo da outra Senhora não havia incêndios como há agora. A culpa seria da PIDE ou da censura. 

Satélites
Astronautas sofrem interrupção involuntária da gravidade.

SdB (I)

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Da rua da minha infância

Ontem almocei no Cadaval em casa de amigos. Ele mais recente, ela protagonista de uma amizade que data de 1969. Apesar de pouco nos termos visto nos últimos anos, nunca perdemos o contacto (telefónico) pelo menos duas vezes por ano. 

Entre 1969 e 1975, talvez, vivi em S. Pedro do Estoril, no fim de uma rua. Uma casa depois da nossa era campo até à Parede. Ali andei de bicicleta, ali saltei à fogueira, ali aprendi a fazer e a andar de carrinho de rolamentos, ali fumei e beijei e namorei às escondidas, ali fiz amizades que perduraram durante décadas. Ali vivi a alegria de fazer parte de um grupo. Foi por isso, pelo impacto que estes anos tiveram na minha vida que um dia, ao passar numa livraria, comprei um livro de um autor que nunca tinha lido - Juan José Millás: o mundo é a rua da tua infância.

Ontem, no decorrer deste almoço algo nostálgico, dei por mim a lembrar-me de tudo: dos nomes das pessoas que viviam nas casas, do tom de voz de quem chamava netos para dentro, de nomes de cães, de marcas de automóveis, dos hábitos e das manias deste ou daquele vizinho, das fisionomias de proprietários e de empregadas. Não foi um exercício de memória, a evidência da minha enorme capacidade para fixar coisas (algumas delas bastante inúteis). Foi, isso sim, a constatação da importância daquele tempo na minha formação, a confirmação de um tempo de enorme felicidade pela liberdade e sentimento de pertença.

O tempo mostrou-me outros mundos, outros grupos, outros motivos de felicidade. Não obstante a existência desses outros mundos compostos por famílias, amigos, gente profissional - uma parte muito substantiva do meu mundo continua a ser a rua da minha infância. Neste caso S. Pedro do Estoril, também com esta minha amiga a quem me ligam 48 anos de amizade. É ali, mas igualmente em Borba, talvez mesmo nas casas imaginadas do Macuti e noutros locais, que me escondo, fumando um cigarro ilícito, beijando uma rapariga ou imaginando o beijo numa rapariga, criando vidas por existir e sorrindo com cheiros, ruídos, caligrafias, papéis de carta ou outras minudências. É ali, nestes sítios todos e noutros igualmente importantes que em tempo de ataque me defendo, pondo as carruagens em círculo.

JdB

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Vai um gin do Peter’s ?

Talvez seja a proximidade das férias, já em pleno Verão, que traz o sabor fresco da maresia. Ou será só um pensamento português, que tem sempre o mar por horizonte. Revigorante e infinito. Os poetas foram os primeiros a chamar nosso ao mar, dando nacionalidade aos trilhos mais percorridos pelos antepassados de outras eras. Caminhos e mapas que para a maioria são terrestres, para os portugueses são sulcados nos oceanos.

Percebe-se que uma das vozes marinhas do nosso património literário – Sophia (1919-2004) – considerasse o mar como um milagre criado para a inspirar infinitamente:

«Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.»

Foi também uma presença maior nos seus contos, pois ali se guardavam os melhores segredos da infância que se aventurava até à praia, à descoberta de um mundo mais verdadeiro e íntimo, vedado aos olhares curtos e embaciados dos adultos. Associou-o, igualmente, à alma feminina, que se espelha nos olhos. E nunca se cansou de o ver colossal, para com ele engrandecer tudo o que descobria inteiro e magno. Assim o cantou em «O mar dos meus olhos»:

«Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma

E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma.»

Será só coincidência que as obras mais especiais de Amália quase sempre transbordem de mar, como o «BARCO NEGRO» a musicar um poema lindo de David Mourão-Ferreira?



Outro tanto podia dizer-se da «CANÇÃO DO MAR» (1)  ou d’ «O POVO  QUE LAVAS NO RIO» (mais fluvial) com letra e música de Pedro Homem de Mello a denunciar o sofrimento silenciado de muitos na época da censura assumida, ou do espantoso fado «GAIVOTA» com letra de Alexandre O’Neill(2)  e música de Alain Oulman (1965) a falar, como ninguém, das deambulações do coração português, figurado nas aves marítimas que povoam os céus da cidade à beira Tejo:



Na própria letra do «FADO PORTUGUÊS» – escrito para Amália por José Régio e com arranjo musical de A. Oulman – o mar é o espaço natural onde se cantam as penas e as alegrias. Nunca menos que um horizonte descomunal capaz de alcançar as nuvens:

«O Fado nasceu um dia, 
quando o vento mal bulia 
e o céu o mar prolongava, 
na amurada dum veleiro,
 no peito dum marinheiro 
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada.
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.»

Referindo-se sobretudo ao «BARCO NEGRO», é curioso ouvir de estrangeiros a impressão causada pelo fado, a ecoar na alma. Dito por um espanhol: «No hablo portugues, solo escucho, escucho y siento que el fado es la música para mirar atrás, para recordar, para mirar adentro de nuestra alma; para recordar el amor y el desamor, la felicidad y la tristeza, la compañía y la soledad.». Explicado por um brasileiro: «ao ouvir essa música, logo nos primeiros acordes, ela me deixou paralisado! Como se me falasse ao fundo da alma, e me pareceu tão familiar como se já a conhecesse.» Na comédia «Gaiola Dourada», realizada por um francês de ascendência portuguesa, há uma cena passada num bar minúsculo e típico da ruela empinada onde corre o Elevador de Sta.Catarina, cujo clímax é o fado entoado por Catarina Wallenstein. Conta o realizador que ao terminar a filmagem, de take único, dá com a equipa francesa comovida até às lágrimas. Surpreendido, ouviu-os explicar-lhe que tinham sido invadidos por aquela sonoridade nostálgica e ancestral. A letra cheia de ideal e incompreensível para eles, a contar que depois de um tempo de diáspora é hora de voltar a Portugal, tinha passado inteiramente pela incrível expressividade musical, cantada com enorme convicção. À fado! 

Fazendo jus à tirada refrescante de Nietzsche – «sem a música, a vida seria um erro», fica ainda um dueto de Julio Iglesias e Amália (1980) – «CANTO A GALICIA» – igualmente melancólico e impregnado de antiguidade, a evocar uma raiz civilizacional que deixou marcas indeléveis no pequeno Condado Portucalense, berço do país nascente, há quase mil anos. Ouve-se o mesmo eco que ficou a ressoar nos fados: 


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
__________________
(1)  Letra de Frederico de Brito e música de Ferrer Trindade, começou por ser cantada, em 1955, sob o título «Solidão».
(2) O génio de O’Neill imortalizado no fado «GAIVOTA»:

«Se uma gaivota viesse
Trazer-me o céu de Lisboa
No desenho que fizesse
Nesse céu onde o olhar
É uma asa que não voa
Esmorece e cai no mar

Que perfeito coração
No meu peito bateria
Meu amor na tua mão
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração

Se um português marinheiro
Dos sete mares andarilho
Fosse quem sabe o primeiro
A contar-me o que inventasse
Se um olhar de novo brilho
No meu olhar se enlaçasse

Que perfeito coração
No meu peito bateria
Meu amor na tua mão
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração

Se ao dizer adeus à vida
As aves todas do céu
Me dessem a despedida
O teu olhar derradeiro
Esse olhar que era só teu
Amor que foste o primeiro

Que perfeito coração
Morreria no meu peito
Meu amor na tua mão
Nessa mão onde perfeito
Bateu o meu coração.»

terça-feira, 18 de julho de 2017

Duas Últimas

Três notas iniciais sobre o tempo (chronos):

1) Aqui há alguns dias postei um texto assente numa frase dita por um personagem de um filme que, ao ser interrogado sobre como se resolveria um determinado problema sério, respondia sistematicamente: não sei, é um mistério. O mistério, no fundo, de confiarmos que as coisas se resolverão as coisas, mesmo que não saibamos quando nem como.

2) Este domingo que passou tive o grato prazer de assistir à minha missa dominical habitual celebrada pelo Pe. Miguel Vasconcelos, o Sr. Vasconcelos de que já aqui falei por duas vezes. Na sua homilia inspirada, segura, criativa, falou do tempo do Homem e do tempo de Deus, do imediatismo com que queremos que Deus se manifeste e nós, da ideia que temos de querer "gerir" o tempo divino para satisfazer a nossa vontade.

3) Ontem, no decurso de uma longa conversa telefónica, tive o gosto de resolver uma questão que se arrastava há algumas semanas e que prejudicava uma comunicação fluida e partilhada. Podia tê-la tido mais cedo? Sim, mas o tempo ainda não tinha chegado, só agora eu estava pronto a acolher a conversa. O tempo da escuta e do acolhimento são o tempo da escuta e do acolhimento, nem sempre são o tempo da fala. 

***

Deixo-vos com os Supertramp, num regresso nostálgico a um tempo de revolução, de luta, de empenhamento e de militância. Um tempo intenso para um jovem de 16 anos. Porque o disco é de 1974.

JdB


PS: como já aconteceu outras vezes, falhou-me a efeméride. Este estabelecimento celebrou no dia 16 de Julho 9 anos de existência. A todos os que por aqui passam ou passaram como visitantes, cronistas, comentaristas, fica o meu agradecimento.




segunda-feira, 17 de julho de 2017

Dos simbolismos


Os objectos acima, fotografados deficientemente a uma hora já cansada, não são mais do que um relógio e uma caneta. Independentemente da estética dos itens ou da qualidade das marcas, não são, aparentemente, mais do que dois objectos. No entanto, foi este relógio e esta caneta que eu escolhi para, na 6ª feira passada, assinar uma escritura que define o encerramento de um capítulo da minha vida. 

Sou um homem estranhamente dado aos simbolismos. Podia ter ido sem caneta que o notário me emprestaria uma; podia ter ido sem relógio, já que o que uso hoje em dia estava a reparar. Não obstante, achei que o acto que eu ia realizar, não tendo nenhum formalismo nem solenidade, carecia de algo que lhe desse um toque pessoal, para que não se tornasse apenas numa troca comercial no qual se cede um imóvel a troco de uma verba acordada. Quem escolheu este relógio que me foi oferecido e quem me ofereceu esta caneta podem estranhar o simbolismo, mas não estranham os objectos.

Não há aqui superstição de espécie alguma. Assinaria a escritura numa 6ª feira 13, debaixo de uma escada ou com um gato preto de volta. Há apenas uma desejo de conferir uma nota afectiva a um acto impessoal. Levei artigos que prezo, dados ou escolhidos por pessoas que, na sua diferença, me são próximas. Se o acto que fui realizar constituísse uma violência emocional, de princípios ou de educação, recusar-me-ia a usar uma caneta minha. A mão que simultaneamente segurava um relógio e uma caneta é uma mão comandada por uma mente e por um coração. 

Não sei o que isto significa. Provavelmente nada, a não ser uma bizarria. Mas, mesmo reconhecendo uma certa estranheza nesta minha quase obsessão pelo simbolismo das coisas, não conseguiria viver de outra forma, porque na minha cabeça tudo se resumiria a um acto formal, impessoal, comandado por um agente formal e impessoal para quem um casamento é um contrato, um divórcio um acto, uma venda uma troca comercial. Nada é assim tão simples: são obviamente actos, mas que envolvem emoções, mais do que artigos de Códigos Comerciais ou Civis. 

A este respeito, no outro dia almoçava com um amigo a quem lhe foi oferecida uma caneta de ouro, parece-me, que só cumpriu um único acto: celebrar o contrato que oficializava a passagem / venda para a câmara de Portalegre do espólio religioso de José Régio. O simbolismo desta caneta é fortíssimo - só serviu para um único acto, ao qual foi dada a solenidade merecida.

JdB 

domingo, 16 de julho de 2017

15º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 13,1-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele dia,
Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar.
Reuniu-se à sua volta tão grande multidão
que teve de subir para um barco e sentar-Se,
enquanto a multidão ficava na margem.
Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos:
“Saiu o semeador a semear.
Quando semeava,
caíram algumas sementes ao longo do caminho:
vieram as aves e comeram-nas.
Outras caíram em sítios pedregosos,
onde não havia muita terra,
e logo nasceram porque a terra era pouco profunda;
mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram,
por não terem raiz.
Outras caíram entre espinhos
e os espinhos cresceram e afogaram-nas.
Outras caíram em boa terra e deram fruto:
umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um.
Quem tem ouvidos, oiça”.

Os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe:
“Porque lhes falas em parábolas?”
Jesus respondeu-lhes:
“Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos Céus,
mas a eles não.
Pois àquele que tem dar-se-á e terá em abundância;
mas àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado.
É por isso que lhes falo em parábolas,
porque vêem sem ver e ouvem sem ouvir nem entender.
Neles se cumpre a profecia de Isaías que diz:
‘Ouvindo ouvireis, mas sem compreender;
olhando olhareis, mas não vereis.
Porque o coração deste povo tornou-se duro:
endureceram os seus ouvidos e fecharam os seus olhos,
para não acontecer
que, vendo com os olhos e ouvindo com os ouvidos
e compreendendo com o coração,
se convertam e Eu os cure’.
Quanto a vós, felizes os vossos olhos porque vêem
e os vossos ouvidos porque ouvem!
Em verdade vos digo: muitos profetas e justos
desejaram ver o que vós vedes e não viram
e ouvir o que vós ouvis e não ouviram.
Vós, portanto, escutai o que significa a parábola do semeador:
Quando um homem ouve a palavra do reino
e não a compreende,
vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração.
Este é o que recebeu a semente ao longo do caminho.
Aquele que recebeu a semente em sítios pedregosos
é o que ouve a palavra e a acolhe de momento,
mas não tem raiz em si mesmo, porque é inconstante,
e, ao chegar a tribulação ou a perseguição por causa da palavra,
sucumbe logo.
Aquele que recebeu a semente entre espinhos
é o que ouve a palavra,
mas os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza
sufocam a palavra, que assim não dá fruto.
E aquele que recebeu a palavra em boa terra
é o que ouve a palavra e a compreende.
Esse dá fruto,
produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um”.

sábado, 15 de julho de 2017

Pensamentos Impensados

Representantes
Os deputados das últimas filas da Assembleia da República descobriram um filão. Não intervêm, limitam-se a estar presentes e a fazer o que o chefe lhes manda, isto é, levantam-se, sentam-se. Nos intervalos vêm a internet. Só estão preocupados com o estado da ração, que é muito boa.

Crendices
As superstições já estão fora do prazo; crie as sua próprias superstições.

Dentes valentes
Queres ir beber um copo?
Um copo não se bebe, quando muito mastiga-se.

Maleitas
A coxa chama-se coxa porque pode fazer com que uma pessoa fique coxa.

Massacragens
Precisava de uma massagem na região lombar e o massagista virou-me as costas.

Pontos de vista
Penso que Jerónomo de Sousa é um homem às direitas.

Golpes sem bisturi
Os médicos que passam atestados falsos incorrem no crime de golpe de atestado.

Boatos
Informam-me de uma boa notícia que passo a excitar: a gasolina vai descer 50 centimos. Entretanto informam-me que não é verdade: fim de excitação.

SdB (I)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Das casas e dos espaços


A vida é uma casa com duas portas. Há uns que entram e que têm medo de abrir a segunda porta. Ficam girando, dançando com o tempo, demorando-se na casa. Outros se decidem abrir, por vontade de sua mão, a porta traseira. Foi o que eu fiz, naquele momento. A minha mão volteou o fecho do armário, a minha vida rodeou o abismo.

(Mia Couto)

***

Ouvi esta frase pela primeira vez há pouco menos de nove anos. Decidi reproduzi-la aqui porque a fotografia, como o pensamento, fala de portas, de vida - e por maioria de razão de chaves. Como disse ontem a um grupo de gente muito próxima, rodei uma chave semelhante, numa fechadura semelhante, mas nesta porta exacta, há trinta e seis anos. Fi-lo, nesse dia já longínquo, no sentido dextrorsum. Ontem fi-lo no sentido inverso, seguramente pela última vez. De alguma forma estas fechaduras vão contra a lógica do destino: ao fechar esta porta para sempre devia tê-lo feito ao sabor dos ponteiros do relógio, para acompanhar o tempo que não pára, que é um rio sem retrocesso. 

Para trás ficam janelas, sacos vazios, armários de portas escancaradas, prateleiras vergadas pelo peso dos livros e paredes atacadas pelo salitre. Fica o eco, se eu quisesse ter gritado; fica o espaço vazio, se eu quisesse ter dançado. Fica a poeira do tempo, das casas fechadas, das preguiças domésticas e dos móveis pesados, da acumulação de inutilidades que já foram utilidades ou que nunca o foram. Mas fica uma porta - aquela que eu fechei ontem pela última vez, por onde entraram pessoas que estão e pessoas que foram, pessoas que entraram deitadas e outras que saíram deitadas, como se esta semelhança dentro da diferença geracional fosse uma metáfora para a vida; entraram pessoas que marcaram a diferença e pessoas cuja existência não ficou gravada. Não ficou nada de mais, porque aquela casa era uma casa igual a tantas outras, onde a História tem a relevância que cada um lhe quer dar.

Fechar uma casa pode ser, como já partilhei, uma tarefa que se cumpre com eficiência ou um acto de encerramento simbólico. Encerra-se um espaço que servirá outros propósitos, mas também se encerra um tempo que foi. Um tempo de tudo, como o são os tempos saudáveis: tempo de riso, de discussão, de luta, de conforto, de debate, de disrupção, de reconciliação. Um tempo de construção, acima de tudo. Talvez o cansaço do corpo pelo cumprimento de uma tarefa esconda o cansaço da alma por uma porta que se fecha para outra realidade. Ontem, ao fechar trinta e seis anos atrás de mim, não sei o que senti. Talvez apenas cansaço físico, porque as minhas memórias - aquelas que me confortam ou entristecem - não residem em casas, mas em espaços. E entre uma casa e um espaço o conjunto intersecção pode existir, mas não ser determinante. Porque este é maior do que aquela.

JdB         

quinta-feira, 13 de julho de 2017

"Não sei, é um mistério..."

Vejo pela enésima vez  - melhor, vejo cenas esparsas - do filme A Paixão de Shakespeare. Para além da dimensão estética que me sugere a actriz principal, há uma frase luminosa que é dita por duas ou três vezes durante o filme, e que eu já reproduzi aqui. Quando confrontado com alguns problemas aparentemente irresolúveis e graves, um dos persongens responde que tudo se resolverá. Perguntam-lhe angustiadamente: Mas como? A resposta chega aparentemente vaga, mas inundada de uma esperança intuída: não sei, é um mistério.

Parte da nossa vida são problemas aparentemente irresolúveis e graves. Para alguns não vemos solução, para outros a alternativa é entre mau e pior; para alguns não vemos esperança, porque a estrada em frente aparenta ser um beco sem saída já ao virar da esquina. Muito acaba por se resolver - não sei se é Deus, se é o destino, o fado ou as probabilidades. O que sei é que, mesmo para um funcionário cansado, há sempre a hipóteses desta resposta face ao mas como se resolverá tudo? com que enfrentamos a angústia: não sei, é um mistério. 

JdB

***


Poema dum Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos 
dispersou-me os amigos 
tenho o coração confundido e a rua é estreita 

estreita em cada passo 
as casas engolem-nos 
sumimo-nos, 
estou num quarto só num quarto só 
com os sonhos trocados 
com toda a vida às avessas a arder num quarto só 

Sou um funcionário apagado 
um funcionário triste 
a minha alma não acompanha a minha mão 
Débito e Crédito Débito e Crédito 
a minha alma não dança com os números tento escondê-la envergonhado 
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente 
e debitou-me na minha conta de empregado 
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar 
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever? 
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço? 

Soletro velhas palavras generosas 
Flor rapariga amigo menino 
irmão beijo namorada 
mãe estrela música 

São as palavras cruzadas do meu sonho 
palavras soterradas na prisão da minha vida 
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida 
num quarto só 

António Ramos Rosa, in 'O Grito Claro'

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Duas últimas

Nestes últimos dias estive com parte da família a banhos. No Sul do País, pois claro, que o tempo e a imaginação não deram para mais. E já foi bem bom...

Convivendo com um tempo algo incerto, uma água gélida, uma praia com pouca areia - lá estavam, ameaçadoras, uma draga e uma giratória (!), para tentarem repor o que o mar foi levando e esburacando ao longo dos meses invernosos -, acompanhando gaivotas atrevidas, um hotel de excepção e magníficas iguarias: realço o peixe, as saladas ou a fruta.

O silêncio, tão bem tratado no blogue pelo dono do estabelecimento, também fez parte do cardápio destas mini férias. Feito de leituras ou de demoradas contemplações do horizonte, convidando à meditação e à afinação do auto controlo, que o espaço a tal se prestava.

Aliás, a minha mulher está a ler um livro do cardeal guineense (da Guiné Conacri) Robert Sarah, homem de confiança do Papa Francisco, tanto que o nomeou em 2014 para funções relevantes dentro da Igreja. O título do livro é " A força do silêncio, contra a ditadura do barulho", e a mencionada leitora aconselha-o vivamente.

Deixo-vos com uma musiquinha tranquila que quadra bem com o que fica dito.

Espero que concordem.

fq

Vídeos dos dias que correm

terça-feira, 11 de julho de 2017

Do silêncio (post repescado com actualizações)

Fui buscar ao site Essejota [na altura site da Companhia de Jesus em Portugal] este pensamento, publicado ontem, 1 de Agosto [de 2008]. O silêncio é um tema que me encanta, sobre o qual gosto de ler e de pensar. A minha vida dos últimos anos foi atravessada, aqui e ali, por momentos de grande parcimónia na utilização das palavras - ditas ou ouvidas. Foram tempos reconfortantes, de olhar para dentro e para fora, de escutar vozes que só nós ouvimos, de proferir frases que mais ninguém ouve; foram alturas esmagadoras, em que o que não se dizia tinha um peso infinitamente doloroso, constrangedor, revelador de um incómodo que era filho do diálogo que já não existia. O silêncio é, de facto, uma ferramenta poderosíssima, capaz do melhor e do pior. Assim eu soubesse usá-la para os fins mais elevados.

O silêncio é um valor inestimável. Sem silêncio não se ouve e ainda menos se escuta. O homem que não se escuta a si próprio, desconhece-se. O que não tem espaço e tempo para meditar, para ouvir o significado dos sons e das palavras, anda neste mundo a reboque, sem leme. Só no silêncio é possível descobrir outros sinais de comunicação. Aproveitemos este tempo de férias para fazer silêncio. O silêncio é o segredo de uma melhor comunicação.

(Vasco P. Magalhães, sj)

***

Há coincidências, mesmo que esta não seja significativa. Este sábado vinha de Coimbra com um amigo e colega de direcção da Acreditar. Falámos de temas diversos como as minhas aulas, o meu doutoramento, a pintura dele e o livro que ele está a terminar. Falei-lhe de silêncio, um tema que me interessa desde há muito (e a citação de um post com nove anos é bem sintomático...) e que quero abordar na tese. Ontem ao pesquisar, já a horas tardias, o que postar preguiçosamente hoje, deparei-me com o referido post. Ontem, ainda, li um texto muito interessante na revista Brotéria dedicada aos 100 anos das aparições de Fátima, intitulado: "da Religião à Oração: uma reflexão sobre a Fé e o Lugar de Fátima" [João J. Vila-Chã, in Brotéria, Maio / Junho 2017]. E cito:

No seu silêncio, o homem deixa de olhar para as coisas, para os nomes e problemas do mundo a partir da perspetiva do conceito ou da conceptualização apenas. Nesta forma de oração, portanto, deixa-se cair por terra o ideal de posse ou do ser possuído. São os próprios instintos e as suas moções que se tornam silenciosos. A pessoa que reza precisa de se tornar em sua inteireza silêncio e serenidade. Como diria o grande místico que foi o Mestre Eckhart, trata-se mesmo de aprender a ser igual ao Nada.

JdB


segunda-feira, 10 de julho de 2017

Textos dos dias que correm

Perdoar e Esquecer

Perdoar e esquecer equivale a jogar pela janela experiências adquiridas com muito custo. Se uma pessoa com quem temos ligação ou convívio nos faz algo de desagradável ou irritante, temos apenas de nos perguntar se ela nos é ou não valiosa o suficiente para aceitarmos que repita segunda vez e com frequência semelhante tratamento, e até de maneira mais grave. Em caso afirmativo, não há muito a dizer, porque falar ajuda pouco. Temos, portanto, de deixar passar essa ofensa, com ou sem reprimenda; todavia, devemos saber que agindo assim estaremos a expor-nos à sua repetição. Em caso negativo, temos de romper de modo imediato e definitivo com o valioso amigo ou, se for um servente, dispensá-lo. Pois, quando a situação se repetir, será inevitável que ele faça exactamente a mesma coisa, ou algo inteiramente análogo, apesar de, nesse momento, nos assegurar o contrário de modo profundo e sincero. Pode-se esquecer tudo, tudo, menos a si mesmo, menos o próprio ser, pois o carácter é absolutamente incorrigível e todas as acções humanas brotam de um princípio íntimo, em virtude do qual, o homem, em circunstâncias iguais, tem sempre de fazer o mesmo, e não o que é diferente. (...) Por conseguinte, reconciliarmo-nos com o amigo com quem rompemos relações é uma fraqueza pela qual se expiará quando, na primeira oportunidade, ele fizer exactamente a mesma coisa que produziu a ruptura, até com mais ousadia, munido da consciência secreta da sua imprescindibilidade. 

Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

***

O Perdão e a Promessa

Se não fôssemos perdoados, eximidos das consequências daquilo que fizemos, a nossa capacidade de agir ficaria por assim dizer limitada a um único acto do qual jamais nos recuperaríamos; seríamos para sempre as vítimas das suas consequências, à semelhança do aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço. Se não nos obrigássemos a cumprir as nossas promessas não seríamos capazes de conservar a nossa identidade; estaríamos condenados a errar desamparados e desnorteados nas trevas do coração de cada homem, enredados nas suas contradições e equívocos - trevas que só a luz derramada na esfera pública pela presença de outros que confirmam a identidade entre o que promete e o que cumpre poderia dissipar. Ambas as faculdades, portanto, dependem da pluralidade; na solidão e no isolamento, o perdão e a promessa não chegam a ter realidade: são no máximo um papel que a pessoa encena para si mesma. 

Hannah Arendt, in 'A Condição Humana'

domingo, 9 de julho de 2017

14º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 11,25-30

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, Jesus exclamou:
“Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra,
porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes
e as revelaste aos pequeninos.
Tudo me foi dado por meu Pai.
Sim, Pai, Eu Te bendigo,
porque assim foi do teu agrado.
Ninguém conhece o Filho senão o Pai
e ninguém conhece o Pai senão o Filho
e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
Vinde a Mim,
todos os que andais cansados e oprimidos,
e Eu vos aliviarei.
Tomai sobre vós o meu jugo
e aprendei de Mim,
que sou manso e humilde de coração,
e encontrareis descanso para as vossas almas.
Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve”.

sábado, 8 de julho de 2017

Pensamentos Impensados

Nem sempre são brancas
As bebidas brancas não têm prazo de validade, nem precisam; são para consumo imediato.

Sem bússola
- Tive uma grande constipação mas curei-a.
- Do Norte ou do Sul?
- Não sejas provocador..

Estatísticas
A taxa de imortalidade mantém-se estável

Medias
Os midia falam em redes com buracos em Tancos; gostava de ver redes sem buracos.

Pouca disposição
Eva furtou-se a determinadas actividades alegando dores de cabeça; Adão só disse: muita parra e pouca Eva.

Culinárias
Quando o governo diz que vai apurar refere-se a algum guisado?

Dislexia política
A Direita é muito conversadora.

Desastres sobrenaturais
Quando Camões disse esta é a ditosa Pátria minha amada ainda nã havia SIRESP, incêndios, roubo de armas, oficiais presos e outras patifarias. Portugal passou a ser o país da casa arrombada...

SdB (I)

Acerca de mim

Arquivo do blogue