segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Textos dos dias que correm

Marraquexe, Abril de 2017

O absurdo e o mistério

«Diga-me, em cinco minutos, a substância da sua experiência de filósofo.» - «É a escolha entre duas soluções: o absurdo e o mistério. O meu colega Sartre escolheu o absurdo, eu o mistério.» - «Mas qual é a diferença? Também o mistério parece absurdo!» - «Não, o absurdo é um muro impenetrável contra o qual se esmaga num suicídio. O mistério é uma escada: sobe-se de degrau em degrau para a luz, confiando.»

São estas algumas das frases de um diálogo ocorrido em 1983 entre o presidente francês François Miterrand e o filósofo católico Jean Guitton. É verdade que em cinco minutos só se pode dizer pouco, mas também se é estimulado e aprofundar e a colher o essencial.

A opção do filósofo Jean-Paul Sartre é conhecida e já está nos títulos de algumas das suas obras, como “O ser e o nada”, “O muro”, “À porta fechada” e, por fim, “A náusea” e “Com a morte na alma”. Muitas pessoas que passam e se sentam junto a nós, sem nunca terem lido uma linha de Sartre, partilham na prática esta decisão.

Estamos imersos num mundo absurdo e repugnante, no qual as portas das respostas estão todas fechadas e indisponíveis, e o horror é a marca da nossa existência. A liberdade impele-nos a ultrapassar esse muro, mas estamos destinados a partir as mãos e a esmagar-nos contra ele se o tentamos escalar.

Muito diferente é a conceção de Guitton, que vê o ser como uma escada aberta aos nossos passos. É um pouco como a de Jacob, que «viu uma escada apoiada na terra, cuja extremidade tocava o céu» (Génesis 28, 12).

A subida é cansativa, pode-se tropeçar porque os primeiros degraus estão na escuridão, mas lá em cima há uma luz infinita. Com o archote da esperança e com o desejo da procura pode-se prosseguir de etapa em etapa, de luz em luz…

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In "Avvenire"
Trad.: SNPC
Publicado em 18.11.2017

domingo, 19 de novembro de 2017

33º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 25,14-30

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«Um homem, ao partir de viagem,
chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens.
A um entregou cinco talentos, a outro dois e a outro um,
conforme a capacidade de cada qual; e depois partiu.
O que tinha recebido cinco talentos
fê-los render e ganhou outros cinco.
Do mesmo modo,
o que recebera dois talentos ganhou outros dois.
Mas, o que recebera dois talentos ganhou outros dois.
Mas, o que recebera um só talento
foi escavar na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
Muito tempo depois, chegou o senhor daqueles servos
e foi ajustar contas com eles.
O que recebera cinco talentos aproximou-se
e apresentou outros cinco, dizendo:
‘Senhor, confiaste-me cinco talentos:
aqui estão outros cinco que eu ganhei’.
Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel.
Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes.
Vem tomar parte na alegria do teu senhor’.
Aproximou-se também o que recebera dois talentos e disse:
‘Senhor, confiaste-me dois talentos:
aqui estão outros dois que eu ganhei’.
Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel.
Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes.
Vem tomar parte na alegria do teu senhor’.
Aproximou-se também o que recebera um só talento e disse:
‘Senhor, eu sabia que és um homem severo,
que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste.
Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra.
Aqui tens o que te pertence’.
O senhor respondeu-lhe: ‘Servo mau e preguiçoso,
sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde nada lancei;
devias, portanto, depositar no banco o meu dinheiro
e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu.
Tirai-lhe então o talento e dai-o àquele que tem dez.
Porque, a todo aquele que tem,
dar-se-á mais e terá em abundância;
mas, àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado.
Quanto ao servo inútil, lançai-o às trevas exteriores.
Aí haverá choro e ranger de dentes’».

sábado, 18 de novembro de 2017

Pensamentos Impensados

Prevaricação em moda
Consta que foi vista Odete Santos, na rua, a gritar: e a mim, ninguém assedia?

Altas matemáticas
O Mundo foi criado há minutos, não se sabe é quantos.

Não se trata de Paulo Portas
Há várias qualidades de portas, sendo a mais esquecida a porta-te bem.

Interné
Ligue já para 123456 e receba grátis informação sobre aumento de impostos.

Desorientado
Não sabia qual a sua orientação sexual, pois tinha perdido a bússola.

Gigantismos
Vi fazer surf nas ondas gigantes da Nazaré; não tentem fazer em casa.

Vícios
O hábito de ver vídeos chama-se video-hábito.

Maus hábitos
Conheceu tudo o que havia sobre sexo; para isso, foi de lés a lésbica.

SdB (I)

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Moleskine

Mestrados I
Cruzo-me nas aulas com uma colega do mestrado. Gosto de conversar com ela, pela simpatia, pelo sentido de humor e pela inteligência e cultura discretas que revela. Defendeu a sua tese de mestrado (baseado no livro A Consciência de Zeno) seis meses depois eu ter defendido a minha. Teve um 18. Hoje perguntei-lhe porque motivo escolheu aquele tema: porque é igual ao meu tio, que é uma pessoa muito importante para mim... Não foi uma epifania, uma vontade de deixar um escrito para a posteridade, um alarde de erudição - limitou-se a encontrar um ponto de intersecção com uma pessoa que lhe era próxima. 

Zimbabwe
Tenho acompanhado a situação no país de Mugabe, não por me interessar por política africana nem por compaixão por um país onde a esperança de vida anda pelos 35 anos, mais coisa menos coisa. Vivi lá dois meses e poderia copiar o Malato: já fui feliz no Zimbabwe. Interesso-me, de facto, porque lá vivi, e isso torna a tragédia e a esperança em algo mais próximo. Todos os dramas ou alegrias assumem uma dimensão diferente a partir do momento em que têm lugar em sítios que conhecemos. Dez pessoas morrerem no mercado de velha Delhi tem em mim um impacto superior à morte de 50 pessoas na Mongólia, porque conheço um, não conheço o outro. Um golpe de Estado no Zimbabwe suscita-me uma atenção que não suscita igual movimento na Costa do Marfim. 

Monte Ngomakurira, Zimbabwe, Setembro de 2008 

Mestrados II
Zeno é igual ao tio da minha colega. Diz-me ainda: o João sabe? O Joyce é igual ao meu avô. Este raciocínio é curioso. Em momento algum, que me lembre, consegui encontrar semelhanças entre pessoas que me são próximas e personagens de ficção ou personagens reais. Terei de estar mais atento, disse-lhe eu. A resposta veio rápida: não é preciso. As parecenças batem-nos na testa. Tenho de estar mais atento, mesmo assim.

Arquitectura religiosa


Por motivos da minha tese de doutoramento leio o livro acima. Muito, seguramente, por ignorância e preconceito meus, sempre tive uma opinião pouco positiva sobre a arquitectura religiosa desta época, formatado que estava / estou pela arquitectura "antiga", clássica, bonita. Mas impressiona-me positivamente o envolvimento de tantos arquitectos e outros artistas plásticos (todos católicos) na definição de regras, na adaptação do espaço à liturgia, no pensamento de uma arquitectura mais consentânea com os tempos de então, enquandrando fiéis e altar, por exemplo.

Cito o livro que cita o Pe. Couturier: A glória de Deus não consiste na riqueza e na enormidade, mas na perfeição da obra pura. Se as nossas igrejas fossem assim, poderiam recomeçar a ensinar ao mundo que muito pouco chega para o essencial

O despojamento, portanto.

JdB

Poemas dos dias que correm

Toronto, Outubro de 2014
Gerês, Setembro de 2016


Percam para Sempre

Percam para sempre as tuas mãos o jeito de pedir.
Esqueça para sempre a tua boca
O que disse a rezar.
E os teus olhos nunca mais, nunca mais saibam chorar
Porque é inútil.
Faz como os outros fizeram
Quando chegou o momento
De perder o medo à morte
Por ter muito amor à vida.

Raúl de Carvalho, in 'As Sombras e as Vozes'


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Duas Últimas

Passei o último fim-de-semana no Vidago, com pessoas de família.

Encontrámos um sítio tranquilo, com gente que não incomodava, boa mesa e um parque com árvores magníficas de proveniências muito distintas, excelente para passeios, a pé ou de bicicleta. Afinal, aquilo que procurávamos.

Nada de televisões e poucos jornais, mantendo um esparso contacto com o mundo exterior.

Aproveitámos para visitar a localidade de Pitões das Júnias, na parte nordeste do Gerês, concelho de Montalegre, paredes meias com a Galiza. Uma zona ainda verde, apesar da seca, de rica vegetação e trilhos apertados, felizmente sem vestígios de incêndios por perto.

Destaco um mosteiro cisterciense abandonado, de que resta uma igreja razoavelmente conservada. Num sítio arrepiante de bonito, isolado e silencioso, com uma pequena ponte sobre uma ribeira e soberbos carvalhos. Sem dúvida um local apropriado para a contemplação, próprio para quem procura estar perto de Deus.

Já com a noite e o nevoeiro a caírem rapidamente, fomos ainda ver umas quedas de água, descendo a bom descer através de um passadiço de madeira. Mas a vista final dessas quedas, no outro lado do vale, compensa a descida algo abrupta.

Garantiram-me que esta é terra de lobos, animal que sempre me fascinou, mas infelizmente não me quiseram presentear com sinais/uivos da sua presença próxima.

Deixo-vos com Roberto Carlos, no estilo enamorado e repousado que se lhe conhece.

Espero que apreciem.

fq



terça-feira, 14 de novembro de 2017

Do dualismo em Shakespeare

She lov’d me for the dangers I had pass’d
And I lov’d her that she didi pity them. 

["Ela amava-me pelos perigos que eu passara; eu amava-a por que se apiedara de mim.” (na tradução do Rei Dom Luís de Bragança, Publicações Europa-América, 1999)]

Shakespeare, in Othello (Acto I, Cena III)

***

A relação amorosa é um diálogo. E um diálogo, até pela sua própria natureza, é um jogo duplo, no sentido de ser protagonizado por duas pessoas. É um movimento de vaivém, de pergunta e resposta, de afirmação e afirmação, de interrogação e interrogação. A relação amorosa que começa, que perdura ou que termina é um mistério cuja decifração está na frase que se diz e que se ouve, no olhar que se derrama ou que se pressente, ou no detalhe, esse activo que é propriedade intermitente de Deus e do diabo, coisa dual que constrói e destrói.

O amor nasce de um dualismo que concentra em si a simultaneidade. Não é A que olha para B e B que olha para A. O olhar de A para B tem de ser simultâneo com o olhar de B para A, pelo que, naquele preciso instante, os olhos se cruzam no espaço e no tempo, permitindo o amor. Na mesma linha de raciocínio, a frase que A diz a B não é simultânea com a frase que B diz a A porque um diálogo não é uma composição de monólogos. Há, no entanto, uma simultaneidade sequencial, um nexo causal, uma causa e efeito, uma força exercida sobre um corpo, corpo esse que reage – é o princípio da acção e da reacção – e, por mais microscópico que seja, desvia o seu percurso.

O amor nasce desta diversidade de dualismos: a troca de olhares, a troca de frases, a troca de sorrisos que estabelece o comércio, o toque dual de uma mão na outra. Mas o amor nasce também do motivo, do porquê? com que interrogamos o céu, o destino, as estrelas. O dualismo nasce do motivo duplo: A ama B porque...; B ama A porque... O sucesso do amor não reside no conhecimento de uma resposta, de outra resposta, de ambas as respostas. O sucesso do amor reside no dualismo perfeito das duas respostas, no encaixe perfeito de uma saliência e de uma reentrância, na conjugação harmoniosa do claro e do escuro, de Veneza e de Chipre, ou mesmo do claro e do claro, de Veneza e Veneza.

Otelo e Desdémona amam-se e casaram. Neste casal há, aparentemente, dualismo: há claro e escuro, há novo e velho, há Veneza e Chipre. E há amor, que é uma espécie de aglutinante de todos estes ingredientes adicionados à malga em proporções de par. Por vezes, quando estes dualismos assumem foros desafiantes, como se a todos os elementos se juntasse o advérbio muito (muito claro e muito escuro, muito Veneza e muito Chipre) o amor é um emulsionante, homogeneizando dois fluidos imiscíveis. 

Assim sendo, o amor de um pelo outro chegaria para conferir felicidade ao par? Sim, mas...

Na terceira cena do primeiro acto, no entanto, o desfecho está traçado. Não haverá felicidade, não porque entre A e B se interponha C, ou porque um determinado lenço (tingido do sangue que não tingiu nunca os lençóis) caiu nas mãos erradas, no momento errado. Não haverá felicidade, não porque A e B se não amem mutuamente, mas porque no dualismo que contém o motivo do amor o conjunto intersecção é nulo; não houve acção / reacção; A olhou para B numa fracção de instante diferente do momento em que B olhou para A. E nessa fracção de instante o mundo rodou, a posição relativa das coisas deslocou-se, B tinha fechado os olhos um milímetro, e os olhos alheios viram coisas diferentes.

Otelo ama Desdémona; Desdémona ama Otelo. Mas este amor não é aglutinante nem mesmo emulsionante. O amor que um nutre pelo outro tem uma natureza diferente, e é isso que mata o amor. 

Recorramos à tradução portuguesa: Desdémona ama Otelo pelos perigos que ele passara. Desdémona nutre por Otelo uma amor que tem uma natureza simultaneamente sexual e romântica. É o amor em toda a sua plenitude física e emocional. O amor nasce-lhe da visão que tem de Otelo, dos perigos pelos quais ele passara. Otelo encantou Desdémona com a história sobre ele próprio. Uma história que ganharia o coração de outras mulheres, tal o seu fascínio. 

Recorramos de novo à tradução portuguesa: “eu amava-a por que se apiedara de mim.” Otelo não ama Desdémona por aquilo que ela é, pela história da sua vida ou pelos perigos que passara, mas ama Desdémona pela forma como Desdémona o ama a ele. Em Otelo, a haver amor, não é carnal, uma vez que não deseja que a mulher parta com ele para Chipre para satisfazer desejos carnais. Otelo ama Desdémona? Talvez à sua maneira, se entendermos como maneira legítima o mouro apenas amar a forma como Desdémona o ama a ele. E isso, por mais terrível que seja, inviabiliza o amor, ou a possibilidade do amor. Não há dualismo, não há olhar simultâneo, não há frase e outra frase numa simultaneidade consecutiva. 

O casamento de Otelo e Desdémona não é consumado nunca. No leito onde nada começa, tudo acaba. O casamento, tal como a sua consumação num leito onde mora o amor, é um dualismo, o encaixe divino de dois seres, dois diálogos, dois olhares entrecruzados. Talvez, em bom rigor, não tenha havido falta de consumação por idade do mouro que redunda em menos desejo carnal, ou por falta de um amor eros. Talvez, em bom rigor, não tenha havido consumação porque não tenha havido nada de conjugal para consumar. O amor que ambos nutriam um pelo outro era de tal forma diferente, de tal forma distante no espaço e no tempo que nada mais lhes restava, a não ser uma tragédia em cima de outra tragédia. E talvez Otelo tenha cravado um punhal em si próprio, não por remorso ou medo do cárcere, mas porque não conseguia amar-se se ninguém o amava a ele. O caos invade-o, porque, tendo morto Desdémona, já não há ninguém para reflectir a imagem que ele tem, ou quer ter, de si próprio.

O dualismo permite o amor, ou a possibilidade do amor; mas permite a tragédia porque ambos podem andar a par. No entanto, a falta de dualismo, quando entre dois seres criados à imagem e semelhança de Deus, só permite a tragédia. Aconteceu assim com Otelo e Desdémona.     

JdB

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Poemas dos dias que correm

Para vir a gostar de tudo

Para vir a gostar tudo,
Não queiras ter gosto em nada.
Para vir a saber tudo,
Não queiras saber algo em nada.
Para vir a possuir tudo,
Não queiras possuir algo em nada.

Para vir ao que não gostas,
Hás-de ir por onde não gostas.
Para vir ao que não sabes,
Hás-de ir por onde não sabes,
Para vir a possuir o que não possuis,
Hás-de ir por onde não possuis.
Para vir ao que não és,
Hás-de ir por onde não és.

Quando reparas em algo,
Deixas de arrojar-te ao todo.
Para vir de todo ao todo,
Hás-de deixar-te de todo em tudo.
E quando o venhas de todo a ter,
Hás-de tê-lo sem nada querer.

Nesta desnudez acha o espírito o seu descanso
Porque não cobiçando nada,
Nada o afadiga para cima e nada o oprime
para baixo porque está no centro
da sua humildade.

S. João da Cruz

***

Da Oração

Doce quietação de quem vos ama,
Em serviços, Senhor, que tanto quanto
Amado sois, tão longe o fim de tanto,
Subindo mais, e mais, mais se derrama:

Ardendo por arder em viva chama
De amor do vosso amor, a voz levanto;
Sinto, suspiro, choro, colho, e planto
Ao som doutra suave que me chama.

Onde se vai, Senhor, quem vos ofende?
Donde levais, Deus meu, a quem vos segue?
Onde fugir se pode uma de duas?

Morto por quem o mata que pretende,
Ou que extremos de amor há que nos negue
Quem culpas nossas chama ofensas suas?

Frei Agostinho da Cruz (Agostinho Pimenta), in 'Sonetos'

domingo, 12 de novembro de 2017

32º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 25,1-13

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«O reino dos Céus pode comparar-se a dez virgens,
que, tomando as suas lâmpadas, foram a
o encontro do esposo.
Cinco eram insensatas e cinco eram prudentes.
As insensatas, ao tomarem as suas lâmpadas,
não levaram azeite consigo,
enquanto as prudentes,
com as lâmpadas, levaram azeite nas almotolias.
Como o esposo se demorava,
começaram todas a dormitar e adormeceram.
No meio da noite ouviu-se um brado:
‘Aí vem o esposo; ide ao seu encontro’.
Então, as virgens levantaram-se todas
e começaram a preparar as lâmpadas.
As insensatas disseram às prudentes:
‘Dai-nos do vosso azeite,
que as nossas lâmpadas estão a apagar-se’.
Mas as prudentes responderam:
‘Talvez não chegue para nós e para vós.
Ide antes comprá-lo aos vendedores’.
Mas, enquanto foram comprá-lo, chegou o esposo.
As que estavam preparadas
entraram com ele para o banquete nupcial;
e a porta fechou-se.
Mais tarde, chegaram também as outras virgens e disseram:
‘Senhor, senhor, abre-nos a porta’.
Mas ele respondeu:
‘Em verdade vos digo: Não vos conheço’.
Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora.

sábado, 11 de novembro de 2017

Pensamentos Impensados

Mezinhas
A guerra é um bom diurético; para informação completa ler War and Piss.

Luvas
Aceitar subornos é inaceitável.

Virtualidades
Os reis, em princípio, são pessoas realistas. D. Sebastião nem por isso.

Unanidades
Se o Presidente da República fizer greve, logo virão os sindicatos a proclamar que a adesão foi de 100%.

Similitudes
Eram dois gémeos tão iguais que as pessoas tinham a maior dificuldade em saber quem era quem.
Já os próprios não tinham a menor dificuldade.

Chatices
Noé, quando se apanhou em terra, depois do dilúvio, só disse: mas que grande seca.

Aparições
Há 6 horas que não vejo Marcelo na televisão; começo a ficar preocupado.

Cabeçadas
Se em vez de ter pedido a cabeça de João Baptista tivesse pedido uma cabeça de pescada, Salomé não teria ficado para a História.

SdB (I)

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Textos dos dias que correm

A Liberdade e a Justiça

A revolução do século XX separou arbitrariamente, para fins desmesurados de conquista, duas noções inseparáveis. A liberdade absoluta mete a justiça a ridículo. A justiça absoluta nega a liberdade. Para serem fecundas, as duas noções devem descobrir os seus limites uma dentro da outra. Nenhum homem considera livre a sua condição se ela não for ao mesmo tempo justa, nem justa se não for livre. Precisamente, não pode conceber-se a liberdade sem o poder de clarificar o justo e o injusto, de reivindicar todo o ser em nome de uma parcela de ser que se recusa a extinguir-se. Finalmente, tem de haver uma justiça, embora bem diferente, para se restaurar a liberdade, único valor imperecível da história. Os homens só morrem bem quando o fizeram pela liberdade: pois, nessa altura, não acreditavam que morressem por completo.

Albert Camus, in "O Mito de Sísifo"

***

A Justiça em Estado Puro

Quero que me ensinem também o valor sagrado da justiça — da justiça que apenas tem em vista o bem dos outros, e para si mesma nada reclama senão o direito de ser posta em prática. A justiça nada tem a ver com a ambição ou a cobiça da fama, apenas pretende merecer aos seus próprios olhos. Acima de tudo, cada um de nós deve convencer-se de que temos de ser justos sem buscar recompensa. Mais ainda: cada um de nós deve convencer-se de que por esta inestimável virtude devemos estar prontos a arriscar a vida, abstendo-nos o mais possível de quaisquer considerações de comodidade pessoal. Não há que pensar qual virá a ser o prémio de um acto justo; o maior prémio está no facto de ele ser praticado. Mete também na tua ideia aquilo que há pouco te dizia: não interessa para nada saber quantas pessoas estão a par do teu espírito de justiça. Fazer publicidade da nossa virtude significa que nos preocupamos com a fama, e não com a virtude em si. Não queres ser justo sem gozares da fama de o ser ? Pois fica sabendo: muitas vezes não poderás ser justo sem que façam mau juízo de ti! Em tal circunstância, se te comportares como sábio, até sentirás prazer em ser mal julgado por uma causa nobre!

Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Dos recasados

Abro com uma declaração de interesses: sou católico, vivo bem na Igreja que me acolheu e eu acolhi, acato as decisões e as regras, mesmo aquelas que me parecem mais desfasadas no tempo, reconheço na Igreja inúmeros erros, o que é sinal da sua humanidade e fragilidade. Por último, vivo recentemente aquilo que se chama uma situação irregular.  

***

Leio no Observador, ainda ontem, que a Diocese de Braga vai constituir um grupo para acompanhamento dos cristãos que se divorciaram e voltaram a casar. A Diocese emitirá um documento em breve, intitulado "Construir a casa sobre a rocha", que vai de encontro à exortação apostólica “Amoris Laetitia” (Alegria do Amor), do papa Francisco. Esta notícia suscita-me um post.

A minha roda de amigos é composta por gente entre os 56 e os 65 anos, maioritariamente. São quase todos casados: uns com primeiros casamentos que duram há 30 ou mais anos, outros com novas relações mais recentes, outros com segundas relações com mais de 20 anos, depois de erros ou infortúnios. Dos que frequentam a igreja ao Domingo, alguns recasados comungam, outros não. Os que não o podem / querem fazer têm pena, independentemente de acharem que podem ou não comungar, porque alguns, presumo eu socorrem-se da sua consciência para decidir o que fazer.

Nos últimos anos - e sei disto porque foi afirmado publicamente pelo Papa - os processos de declaração de nulidade dos casamentos têm sido agilizados. Eliminaram-se passos do processo e, com isso, encurtaram-se prazos. Talvez o crivo que definia quem era "elegível" ou não esteja maior, pelo que há mais casos. Todos nós, de uma forma ou de outra, conhecemos casos. Eu, sem um grande esforço de memória, conheço meia dúzia - alguns de gente da minha idade, outros de gente mais nova. 

Desde que surgiu esta agilização que manifesto o meu desconforto por este caminho que a igreja parece estar a seguir. Se há casos que são óbvios, outros requerem um pensamento mais elaborado. Afinal, não falamos de dogmas. Assim sendo, alguns / muitos casais vêm o seu percurso de prática religiosa mais desimpedido. O que "diz" a declaração de nulidade? Que naquele preciso instante em que os noivos disseram que sim, perante o testemunho de um padre, não houve sacramento. Ambos os noivos são solteiros aos olhos da Igreja, pelo que podem receber de novo, não só o sacramento do matrimónio, mas outros que lhes estariam vedados. 

De fora continuam todos aqueles, alguns com mais de 20 anos de novas relações, para quem as regras ou a consciência impedem o processo e declaração de nulidade. De fora continuam todos aqueles que cometeram um erro, ou foram vítimas de uma situação indesejada, e que quiseram refazer a sua vida conjugal. 

Do ponto de vista do raciocínio intelectual (e não sei bem o que isto quer dizer) dizer-se que não houve sacramento não é fácil de entender. A minha tendência imediatista, totalmente desfasada do que deve ser, é encontrar justiça na decisão. Assim, num raciocínio muito leviano, a declaração de nulidade devia aplicar-se ao "queixoso", àquele/a que foi abandonado/a, a quem mentiram, que foi sujeito/a a violências de qualquer tipo. O/a outro/a, que enganou, agrediu, mentiu, segue de alguma forma impune, podendo refazer a sua vida. é justo? É sempre correcto?

Olho para alguns dos meus amigos: o segundo casamento deles é o primeiro casamento. Foi por esse segundo que lutaram, que perderam noites de vigília aos filhos, nalguns casos dias nos hospitais; foi por esse que deram tudo, porque o primeiro foi um erro curto com custos elevados, um azar, uma decisão leviana - ainda que consciente. Para esses a solução é escassa, ainda.

Há muito que defendo a solução da igreja ortodoxa para estas situações. Fulano recasou, não é elegível para o processo de nulidade, mas quer casar de novo. A igreja, depois de um período de acompanhamento e discernimento, aceita um segundo casamento. Não há exercício da consciência individual, não há rebelião contra as regras. O recasamento, mediante certas condições, é aceite pela Igreja, porque quem está à frente da paróquia sabe quem é Fulano. É a vida e prática religiosa da pessoa que fala por si.

Não sei o que se tem feito nas paróquias / dioceses por estes recasados não elegíveis para a declaração de nulidade mas que querem receber os sacramentos. Não sei se se faz alguma coisa, porque nada vem a público - apenas o caso da Diocese de Braga. Mas gostava de ver esta realidade bracarense replicada noutras dioceses, e que disso se desse notícia, para que muita gente possa ver que a exortação do Papa Francisco, neste caso específico, não caiu em cesto roto. 

JdB 

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Vai um gin do Peter’s?

NA PRIMAVERA DE 1895, NASCIA O CINEMA   

Na voragem das invenções extraordinárias do século XIX, com a industrialização e a mobilidade em larga escala, também os hobbies se sofisticaram e democratizaram. A par do boom industrial e comercial, as artes começaram a popularizar-se e uma nova indústria de divertimento despontou num ápice. Por exemplo, o século XIX viu nascer salas de espectáculo em dimensões agigantadas, que tornaram residuais as récitas dos salões palacianos muito comuns no mundo ocidental. Viu também emergir os primeiros fluxos turísticos com viagens de comboio lendárias (no Expresso do Oriente, no Trans-siberiano…) e mega-exposições artísticas e tecnológicas a atrair milhares de visitantes. Começaram as deslocações em massa, à base de curiosos e intelectuais, para se estender aos imigrantes e refugiados, devido à facilidade de acesso aos meios de transporte. Assistiu-se à fundação de Estados de peso na Europa, como a Alemanha e a Itália, assim como à erupção de uma miríade de países por toda a América Latina, no rescaldo das descolonizações. Foi ainda o século da primeira grande guerra europeia moderna, conhecida por «Guerras Napoleónicas» (1803-1815), em consequência da devastação e do clima de guerra civil (ex: período do «Terror Branco») provocados pela Revolução Francesa, que nem as peças de arte poupou. Apesar de tudo, Paris mantinha-se no epicentro da civilização ocidental, embora tivesse já a resvalar para um ocaso irreversível.  

Também o alvor do cinema data da última década de oitocentos e deriva directamente do progresso científico e técnico. Nos Estados Unidos, Thomas Edison inventava uma câmara de imagens animadas (1888) de uso individual, à americana. Cada espectador pagava para espreitar por um monóculo a animação que corria no interior de uma caixa mágica, cognominada cinescópio. 

Em França, Léon Bouly concebia o cinematógrafo, que acabou por ficar associado aos irmãos Lumière, que o patentearam mais tarde, aperfeiçoando o trabalho de Bouly e de outros investigadores gauleses. O novo aparelho projectava imagens movimentadas e visionáveis, em simultâneo, por inúmeros espectadores, dependendo apenas da lotação do espaço. Curiosamente, Edison achou louco e votado ao fracasso o projecto francês, apostado num entretenimento colectivo. Felizmente que o tempo não confirmou este vaticínio.

Outra curiosidade está no apelido dos talentosos irmãos Lumière (luz), talhado à medida do seu feito mais luminoso. 



A 22 de Março de 1895, Auguste e Louis exibiram perante uma pequena plateia a primeira obra do cinema, revelando um notável sentido de marketing. A curtíssima-metragem de 50 segundos tinha por tema a fábrica de família. Intitulou-se «La Sortie de l'usine Lumière à Lyon» e mereceu várias versões, para retocarem o efeito pretendido – hordas de homens e mulheres de semblante agradável e em passo despachado certificavam o vigor da força de trabalho da oficina dos realizadores. Precisamente, algumas das variantes sobre este tema consta da colectânea de 114 filmes dos Lumière, reunidos num documentário(1)  montado, em 2016, pelo director do Festival de Cannes e do Instituto Lumière – Thierry Frémaux. 



Nesse ano de 1895, os dois irmãos não se contentaram com a estreia absoluta em Março, empenhando-se em aperfeiçoar o mini-filme «A Saída da Fábrica Lumière em Lyon». Narra a história que terá calhado, numa noite de insónia, Louis L. chegar à solução optimizada das 24 imagens por segundo, capazes de reproduzir o movimento natural. Assim, a 28 de Dezembro de 1895, a dupla Lumière organizou um segundo visionamento no salão des Indiens, localizado no nº 14 do Boulevard des Capucines (hoje, Hotel Scribe). Entre os 33 espectadores, encontrava-se um futuro realizador de cinema, Georges Meliès, que ficou extasiado com o fabuloso invento. 

O conjunto das curta-metragens seleccionadas por Frémaux (com o trailer no final) correspondem a 90 minutos mágicos, que nos transportam até um mundo distante, situado entre 1895 e 1905. Esse período de transição entre dois séculos traz-nos: o ambiente sofisticado das míticas Exposições Mundiais de Paris; as amplas avenidas de Manhattan cruzadas por caleches e longas carruagens; a antiquíssima e soberba esfinge de Gizé, indiferente à passagem do tempo; as ruelas enigmáticas de Jerusalém com ecos da era medieval; a acumulação divertida de gentlemen em chapéu de coco junto ao Parlamento britânico; os fumadores de ópio orientais numa atmosfera esfumada que envolve o espectador no seu êxtase meio tóxico; as filas de pequeninas em vestidos tufados brancos e muitos laçarotes, acompanhadas por nurses fardadas à Florence Nightingale; pescadores de rosto sulcado pela dor a tentar domar as ondas numa barcaça frágil, antecipando o dramatismo que ficou depois consagrado no ecrã pelo genial realizador russo Sergei Eisenstein. 

O humor, a tensão tragicómica da vida, o suspense, o olhar subjectivo da câmara, as técnicas de travelling, as escolhas meticulosas da mise-en-scène e da melhor perspectiva, os remakes, a profundidade de campo, e até o recurso a pequenos efeitos especiais, impregnam as obras surpreendentes dos pais do Cinema. 

O rol de filmes «LUMIÈRE» flui por temas, com comentários de Frémaux em off, certeiros e cheios de humor. 

Há lugar ao primeiro momento de terror da Sétima Arte, com a chegada do comboio à gare de La Ciotat, provocando o pânico no público, que fugiu da sala para evitar ser colhido pela locomotiva. 

O comboio que parecia prestes a atravessar o ecrã e invadir a sala.

Há lugar às blagues com pequenos episódios ensaiados, como a blague evocada na imagem de cartaz. Mas há também as cenas comuns, que hoje resultam anedóticas, como a bailarina desengraçada e acelerada a querer exibir todas as habilidades em parcos 50 segundos, os soldados franceses a falharem os exercícios militares, as crianças a estragar as coreografias de grupo com as suas espontaneidades deliciosas, etc. 

Este foi uma das provas falhadas por um regimento militar, a merecer um comentário mordaz sobre o motivo por que a França passou a somar derrotas

Há lugar ao espectáculo com a introdução de imagens coloridas artesanalmente, num delírio de tons diferentes aplicados sequencialmente sobre o longo vestido da bailarina, que faz rodar a saia plissada num efeito de borboleta imparável. São 50 segundos de tirar o fôlego.

À falta de actores profissionais, recorre-se também à prata da casa, com a família dos irmãos em primeiro plano, sobretudo os mais novos, sempre naturais e fotogénicos:
  
A protagonista é a filha de um dos realizadores, que come tranquilamente a bolacha, sob o olhar embevecido dos pais. 

A emoção e a carga afectiva também contracenam, desde a primeira hora do Cinema. A personagem considerada mais enternecedora por Frémaux, na multidão imensa filmada pelos dois realizadores, é a da pequena vietnamita a correr à frente de uma câmara estrategicamente localizada para lhe captar um sorriso meigo, enquanto avança livremente, com uma simplicidade encantadora:    



Chegaram a perto de 1500 as curta-metragens realizadas pelos manos da luz, embora poucas tenham subsistido, pois o material era muito inflamável. A maioria acabou consumida pelas chamas. Daí o mérito deste documentário, composto por exemplares restaurados, a confirmar quanto o Cinema nasceu com poesia. Há 122 anos, surgiu bem mais do que um passatempo revolucionário. Inaugurou-se uma nova expressão de Arte – a Sétima!
      
Maria Zarco
 (a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta) 
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(1) FICHA TÉCNICA:

Título original: «LUMIÈRE ! L’AVENTURE COMMENCE»
Título traduzido em Portugal: «LUMIÈRE! A AVENTURA COMEÇA»
Realização: Thierry Frémaux
Argumento: Thierry Frémaux
Produtor: Bertrand Tavernier e CNC-Centre Nationale de la Cinématographie
Fotografia: Irmãos Lumière
Banda Sonora: o compositor francês Camille Saint-Saëns (1835-1921)
Duração: 90 min.
Ano:        2016
País: França
Elenco:  - os irmãos Lumière: Auguste e Louis
                - Thierry Frémaux, 
                - Martin Scorsese, etc.
Local das filmagens: Os sítios originais, há um século atrás:  França, Nova Iorque, Londres, Cairo, Vietname, Jerusalém, etc.
Prémios /distinções: Nos festivais de Cannes e de Toronto 
Site oficial: https://www.facebook.com/Lumi%C3%A8re-Laventure-commence-218273918611458/

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Duas Últimas

Inexplicavelmente, ou talvez não (e esta construção frásica é de uma criatividade que impressiona) Genesis só passou uma vez por este estabelecimento, trazido pela mão de um rapaz de 18 anos, filho do meu amigo fq. Inexplicavelmente, porque são um conjunto fantástico. Talvez não, porque, embora sendo meus contemporâneos, não os ouvi imenso (uma construção frásica mais do tipo tia de Cascais). 

Aderi ao spotify há uns largos meses, quando me fizeram uma gentileza pelos anos. Já vinha com algumas músicas que rapaziada amiga quis sugerir. Há músicas que se relacionam comigo pelo título (sugeridas, talvez, por gente que me conhece menos bem) há músicas que foram sugeridas por quem me conhece há décadas. Penso que ninguém sugeriu Genesis...

Com o tempo fui populando as minhas playlists: fado, música pop, francesa ou italiana, jazz ou crooners, música portuguesa e tangos, entre outras. Da playlist "pop" (e talvez esta designação já seja reveladora do que eu sou com este tipo de música) não deve constar nada posterior aos anos 80. Talvez os Supertramp sejam o conjunto mais moderno.

Pus Genesis, porque gosto de os ouvir - música pop pode ser um bom acompanhamento quando se cozinha, por exemplo. Deixo-vos, por isso, com Genesis.

JdB




segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Do essencial e do acessório

Pietà (1499 - 1500) por Miguel Ângelo

O Êxtase de Santa Teresa (1647 - 1652) por Bernini

As duas fotografias acima (retiradas da net) só num certo sentido é que são muito diferentes. É um facto que a Pietà está fotografada muito de perto, enquanto O Êxtase de Santa Teresa está fotografado de longe. Há uma intenção por trás da escolha, já que poderia ter escolhido a Pietà fotografada de longe e a Santa Teresa de perto. 

Olhar para ambas as esculturas lança um desafio interessante, de entre muitos outros que poderiam ser suscitados por estas duas grandes obras de arte. Um desafio relaciona-se, obviamente com as fotografias e com a pergunta decorrente: por que motivo não faz sentido fotografar a Pietà de longe e Santa Teresa de perto? Por um motivo muito simples: a obra de Miguel Ângelo cabe toda numa fotografia normal, com alguma proximidade, enquanto a obra de Bernini não cabe - ou teríamos de usar uma grande angular. Dito de uma forma muito simples, a Pietà é aquilo; o Êxtase de Santa Teresa é aquilo. Só que a expressão "aquilo" tem que se lhe diga. 

A deambulação inútil acima levanta uma questão de identificação do que é essencial e do que é acessório. A intenção de Miguel Ângelo é representar a dor de uma mãe com o filho morto nos braços: uma proporção perfeita (mesmo que isso tenha implicado o reajuste dos tamanhos relativos) entre uma figura horizontal inserida numa figura vertical. A escultura é aquilo, esteja colocada ao lado de um altar, num nicho, numa sala de museu ou num coreto de aldeia. Por seu lado, a escultura de Bernini representa mais do que Santa Teresa de Ávila (com a sua boca levemente entreaberta, onde alguns veem sensualidade) a ser trespassada pela seta de amor divino de um anjo, embora isso chegasse para nos maravilhar. A escultura são aquelas duas figuras mais tudo o resto, nomeadamente os cardeais da família Cornaro que assistem ao êxtase.

Uma escultura não carece de mais nada, pois tudo o que precisamos de ver está ali, que o resto é suscitado pela nossa sensibilidade. A outra carece de tudo, e por isso não cabe em nada, porque ela contém, não é contida. A escultura é o espaço todo. Um escultor agarrou num bloco de pedra e, vendo o essencial da obra, retirou tudo o que era acessório. O outro escultor, vendo tudo o que era essencial para a sua obra, acrescentou elementos. Talvez a dor da morte de um filho seja de tal maneira essencial que torna tudo o resto acessório. Por sua vez, talvez o êxtase, mesmo que seja de uma mística, requeira testemunhas para que se torne essencial.

O que é essencial e o que é acessório?

JdB

domingo, 5 de novembro de 2017

31º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mt 23,1-12

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus falou à multidão e aos discípulos, dizendo:
«Na cadeira de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus.
Fazei e observai tudo quanto vos disserem,
mas não imiteis as suas obras,
porque eles dizem e não fazem.
Atam fardos pesados e põem-nos aos ombros dos homens,
mas eles nem com o dedo os querem mover.
Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens:
alargam os filactérios e ampliam as borlas;
gostam do primeiro lugar nos banquetes
e dos primeiros assentos nas sinagogas,
das saudações nas praças públicas
e que os tratem por ‘Mestres’.
Vós, porém, não vos deixeis tratar por ‘Mestres’,
porque um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos.
Na terra não chameis a ninguém vosso ‘Pai’,
porque um só é o vosso pai, o Pai celeste.
Nem vos deixeis tratar por ‘Doutores’,
porque um só é o vosso doutor, o Messias.
Aquele que for o maior entre vós será o vosso servo.
Quem se exalta será humilhado
e quem se humilha será exaltado».

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