quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Duas Últimas

A música de hoje foi-me trazida por um dos meus filhos. Conhecedor dos meus gostos musicais, quis-ma dar de presente, pensando e bem que a apreciaria. Agradeço reconhecido.

Por sinal, já a tinha ouvido nas minhas longas paragens diárias no trânsito lisboeta, mas na altura não a retive e música e eu passámos adiante.

A compositora e intérprete, Carolina Deslandes, tem granjeado fama e nome no mercado. A voz, suave e fresca, lembra a de Luísa Sobral, embora menos repenicada. A letra aborda com clareza um tema actual mas de sempre, o amor para a vida toda, a música e o vídeo dispõem bem. Tudo somado, augurando à jovem Carolina uma carreira auspiciosa.

Quase por acaso, descobri entretanto que a cantora é neta de um advogado com quem trabalhei bastante há uns anos, José António Martinez, especialista sobretudo em direito do trabalho. Homem bravo e carismático, prematuramente desaparecido, um mestre a quem muito fiquei a dever.

Já sabemos que, cá pelo burgo, basta esgravatar um pouco, logo aparecem parentescos ou antiguidades...

Espero que gostem da escolha.

fq


terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Textos dos dias que correm

Marraquexe, Abril 2017

Marraquexe, Abril 2017


Amor sem penitência e espírito de sacrifício é um corpo sem coluna vertebral

«Na ascese aprende-se a cobrir com um véu piedoso os defeitos dos outros e a cobrir com um véu de modéstia as nossas glórias. Aprende-se que o cristão tem um só inimigo que deve temer: ele próprio. E que o seu primeiro problema deve ser encerrado nestas cinco palavras: exame de consciência, dor, resolução, acusação, penitência.»

Escolho hoje estas linhas do P. Lorenzo Milani (1923-1967). O cardeal Silvano Piovanelli, seu companheiro de estudos, recordava muitas vezes um testemunho do sacerdote. A quem lhe perguntava por que não deixara a Igreja católica, que o tinha duramente provado, ele respondia: «E onde é que eu encontraria quem me perdoasse os pecados?».

As «cinco palavras» que o P. Milani anota no trecho citado descrevem precisamente o sacramento cristão da Confissão ou Reconciliação. É um itinerário interior que sofreu nos últimos tempos um desvanecimento na prática, apesar de a liturgia após o Concílio Vaticano II o ter tornado mais nítido através de uma celebração sugestiva.

O retorno a si mesmo depois de ter vagueado por fora, imergindo a consciência na superficialidade que descolora bem e mal, confundindo-os, é acompanhado da opção severa e exigente de uma mudança (a «conversão» no grego dos Evangelhos é “metánoia”, ou seja, “mudar mentalidade”) que incide na alma, fazendo com que ela sangre porque amputa vícios intimamente coesos connosco próprios.

Aliás, como escrevia um autor espiritual, Columba Marmion (1853-1923), «o amor sem penitência e espírito de sacrifício é um corpo sem coluna vertebral».


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: SNPC
Publicado em 16.01.2018

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Da fé

Pessoa a quem só a juventude se perdoa o equívoco do elogio realça a minha enorme fé e amor à igreja. Desculpa-se, no fundo, o exagero que se profere em detrimento do gosto de se ouvir. Sou, de facto, um homem com fé e com amor à Igreja - esse amor, imperfeito pela imperfeição humana, que é a condição necessária, ainda que não suficiente, para se ser católico. Não vislumbro outra forma de o ser. 

Na mesma linha de pensamento, lembro um jantar com amigos na 6ªfeira e no decorrer do qual quem estava ao meu lado me falou de sofrimento - do dela, violento e físico, decorrente de um acidente de viação grave, e do de uma cunhada, atingida na vida pela dor de todas as dores. Dizia-me esta amiga duas coisas: uma, que nenhuma dor física, por mais forte que seja (e as dela foi) se compara à dor emocional; em segundo, que nestas grandes dores, de um ou outro tipo, não há fé que nos valha. E falamos de gente com fé, com educação e prática religiosas.

Não tenho, confesso, uma opinião clara. E, a dizê-la, pensando no momento imediato, temo estar em contradição com tanto do que disse e repeti em anos muito passados. Ou talvez esta aparente contradição entre dois discursos intervalados por 16 anos faça parte desse mistério indizível e indecifrável de Deus na nossa vida, da roupa que nos dá em função do frio que faz ou, num raciocínio mais desafiante, do frio que nos dá em função da roupa que temos.

Recuo, portanto, dezasseis anos e avanço cronologicamente. Como se enfrenta a dor injusta num ser indefeso? Como se enquadra o desaparecimento tão afectivamente prematuro e brutal desse mesmo ser indefeso? Onde está a fé, onde está Deus, onde está a oração. Acima de tudo, o que fazem por nós estes três elementos quando confrontados com o pior dos piores? A resposta, passados dezasseis anos é esta: não sei.

O céu em que acreditamos é uma construção, é uma ideia, é um bálsamo - pode mesmo ser uma certeza. No entanto, é uma dimensão de tal maneira diferente que não conseguimos afirmar que é melhor. Medir é comparar, e como comparamos o conhecido com o absolutamente desconhecido? A oração tem um poder curativo, ainda que ao nível emocional ou psicológico? Deus ajudou-me? A serenidade que consegui reter ou ganhar após o acontecimento é uma obra divina? E os que não conseguiram? Não foram bafejados por isso? Foram votados a uma indiferença celeste?

Talvez a fé não me tenha salvo, como disse tantas e tantas vezes; talvez a oração não tenha feito nada por mim ou por todos aqueles que constroem memórias mansas de acontecimentos dolorosos. Talvez Deus se mantivesse sentado numa nuvem, rodeado de querubins e serafins, olhando sufocado para o meu sufoco, aliviado com o meu alívio, sossegado com o meu sossego. Talvez a fé se chame resilência, vontade, instinto de sobrevivência, sorte, olhar derramado no momento certo para o sítio certo. 

Em momentos de dor nada nos consola muito. A fé não é inquebrantável, porque de bom grado a largaríamos para ter connosco os que desaparecem ou para que se fossem embora as dores dos ossos e dos músculos. Contudo, alguma coisa faz, com certeza. Talvez, como disse acima, seja esse o mistério: a presença intangível cujos efeitos são (quase) tangíveis. Se me perguntarem o que fez por mim a fé nessa ano de todos os anos, direi seguramente: salvou-me. 

A solução pode estar nesta frase antiga como as coisas antigas: Deus ajuda os que se ajudam. Pode parecer pretensiosa, dado o texto. Mas não deixa de ser assim.

JdB      

domingo, 21 de janeiro de 2018

3º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 1,14-20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Depois de João ter sido preso,
Jesus partiu para a Galileia
e começou a proclamar o Evangelho de Deus, dizendo:
«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus.
Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».
Caminhando junto ao mar da Galileia,
viu Simão e seu irmão André,
que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores.
Disse-lhes Jesus:
«Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens».
Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O.
Um pouco mais adiante,
viu Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João,
que estavam no barco a consertar as redes;
e chamou-os.
Eles deixaram logo seu pai Zebedeu no barco com os assalariados
e seguiram Jesus.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Pensamentos Impensados

Camonice
As armas e os barões assinalados é uma frase feita.

Se houver dinheiro
Dão-se alvíssaras a quem disser para onde foram as fugas de informação.

Similitudes
Não há vagas faz lembrar mar chão.

Labéus
Se eu escrever a negrito poderei ser acusado de racismo?

Atletas
Lázaro, o da Bíblia, nunca consegui dar o triplo salto; ficou-se pelo duplo salto mortal.

Castigos
Hoje sabe-se quem foi a primeira vítima de violência doméstica da História. Alguém acha que Adão chegou à nova casinha em Massamá todo satisfeito por ter sido expulso? Como já era obrigatário o uso de roupa, ao passar por uma loja de chineses aproveitou os bons preços. Já em casa, Adão encontrou Eva e chegou-lhe a roupa ao pêlo.

SdB (I)

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Dos sonetos

SONNET 116

Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove:
O no; it is an ever-fixed mark,
That looks on tempests, and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth's unknown, although his height be taken.
Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle's compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to the edge of doom.
   If this be error and upon me proved,
   I never writ, nor no man ever loved.

William Shakespeare
***

De entre as minhas embirrações inexplicáveis (se fossem explicáveis seriam embirrações?) estão os sonetos. Há qualquer coisa num soneto que me desagrada, o que é estranho, porque tem métrica, tem rima e, embora a estrutura seja peculiar - duas quadras e dois tercetos - não é bizarra. E no entanto, o que me fasta de Florbela Espanca não é um furor moral onde entra o seu irmão, Apeles Demóstenes, numa relação incestuosa que parece não ter existido, mas o soneto. Num âmbito ainda mais estranho, e porventura mais intelectualmente insultuoso, o que me pacifica com a lírica camoniana é a Amália e o Alain Oulman.

Vasco Graça Moura - dizem-me que com superior mestria - traduziu uma quantidade imensa (todos?) de sonetos de Shakespeare. Dizem-me ainda que há, apesar dessa inegável mestria, uma estranheza: uma rima e uma métrica que nos levam a pensar, excessivamente, que estamos a ler Camões. Daí que seja preferível ler os sonetos na língua original - 14 versos com rima mas sem a "nossa" métrica, com um remate de dois versos (tem um nome, mas esqueci-me).

Este soneto, que partilhei, foi-me apresentado como sendo um dos mais bonitos do escritor - ou pelo menos o mais apreciado por quem me falou dele. Li-o acompanhado, explicado, pensado, relido, interpretado. É um soneto bonito, muito bonito apenas, de onde se tiram lições importantes para a vida de hoje em dia (e que maior fascínio pode haver do que ler uma coisa muito antiga e encontrar-lhe uma actualidade?): a constância do amor, a maturidade do amor, a fidelidade do amor. E ,pormenor a reter, este verso: That looks on tempests, and is never shaken. Para Shakespeare e, dizem-me, para os adeptos do mindfullness, hoje em dia tanto em voga, no amor as tempestades vêem-se, não se vivem.  Isto é, olhamos para elas como algo que passa à nossa frente, não estamos embrenhados nela.

JdB    

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Duas Últimas

Falar de música pode ser falar de gostos bizarros - ou simplesmente desenquadrados do que são as nossa referências em termos de épocas e hábitos. Para os outros, os que gravitam à minha volta e me dão o conforto da sua presença, gostar de música clássica - e com isso recuar 200 anos - é relativamente aceitável. Há uma certa intemporalidade neste género musical, já que daqui a 100 anos haverá gente a ouvir uma obra-prima com 300 anos, ou quiçá mais. Ora, se é aceitável eu ouvir música clássica tão antiga, já não é aceitável eu ouvir e gostar de música ligeira com 60 anos. 200 anos é aceitável, 60 anos sou um velho.

A bem dizer, este raciocínio não tem o menor rigor científico nem um átomo de valor dialético. No limite, o primeiro parágrafo é um verdadeiro disparate. Acontece que o estabelecimento é meu, são dez da noite, estou cansado e sem energia criativa. Lembrei-me que esta semana morreu Madalena Iglésias, a canconetista que o mundo português conheceu do célebre Ele e Ela, e eu quis lembrá-la neste modesto espaço.

Retomo o primeiro parágrafo - gostos bizarros. Talvez o Freud explicasse os motivos pelos quais gosto tanto de música sul-americana: tangos, boleros, milongas, cha-cha-cha... Onde fui eu buscar este gosto vitalício? E donde me vem este toque que alguns considerarão mais kitsch, de gostar da época de outro da música portuguesa? Donde me vem isto tudo, esta bizarria?

Deixo-vos com Madalena Iglésias, uma voz de sempre e para sempre. Não a cantar o que todos lhe conhecem - o que ele era para ela e o seu contrário - mas a interrogar-se sobre o paradeiro da felicidade...

JdB


quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Vai um gin do Peter’s?

A RIQUEZA DA MADEIRA EM LISBOA (séc.s XV-XVI)

O ano de 2018 é um marco importante da descoberta de Porto Santo por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira. Há 600 anos, aportaram acidentalmente – reza a história – no areal paradisíaco da ilha, provavelmente desviados por ventos fortes, da missão de patrulhar a costa africana, infestada de piratas. No ano seguinte, descobriram a Madeira. 

Estava lançado o grande movimento da globalização de que Portugal fora precursor, apostando na expansão marítima pela exploração intensa das rotas atlânticas. Os grandes feitos sucederam-se em catadupa, de modo que todos os anos há novas efemérides para comemorar.

Deslumbrados com a beleza tropical de Porto Santo, os navegadores convenceram o Infante D.Henrique a povoar a terra virgem, pelo que houve nova expedição, integrada por Bartolomeu Perestrelo. Levaram nos mantimentos cereais e coelhos, de criação fácil. Só não contavam que estes se tornariam numa praga. De facto, tudo se misturou na aventura dos Descobrimentos: entre a surpresa de novas civilizações e espécies desconhecidas, o esforço hercúleo nos mares e em terra, a missionação de povos distantes, ou os episódios anedóticos como o contratempo da multiplicação dos pequenos mamíferos. 

Para inaugurar os festejos da descoberta do arquipélago, o MNAA tem exposta, até 18 de Março, uma mostra significativa do acervo artístico da Madeira, com 86 peças oriundas das melhores oficinas da Flandres, da metrópole e do Oriente. Intitulada «As Ilhas do Ouro Branco. Encomenda Artística na Madeira (séculos XV - XVI)»(1), contém óleos e retábulos, escultura e baixos relevos, ourivesaria e incunábulos preciosos, arte decorativa, marfins, lacas e porcelanas. 



Quem mal conheça a Madeira, ficará surpreendido pela qualidade da exposição, a fazer jus à alcunha por que o arquipélago é conhecido: «jóia do Atlântico». 

Num país com poucos recursos, estranhar-se-á a riqueza da colecção reunida pelos colonos madeirenses, ao longo de dois séculos, a ponto de se lhes referir como a um Estado dentro do Estado ou a experiência do Reino a partir de uma latitude mais africana que europeia. 

O motivo de tal florescimento, a partir da segunda metade do século XV, deveu-se ao comércio do açúcar cultivado nas ilhas – o «ouro branco» – e trocado pelos madeirenses nos portos de Antuérpia e Bruges. Percebe-se quanto a aquisição de arte flamenga (na fase inicial) tem lugar maior no povoamento de um território desabitado. Quando, em 1425, o Infante incumbiu Zarco da colonização oficial do arquipélago, abrira a possibilidade de ser edificada uma nova sociedade. E logo um intercâmbio entre povos e culturas começou a fluir, acrescentando à biodiversidade natural da Madeira, a componente artística. 

Desde cedo, a acumulação de património converteu-se em troféu económico, sinal de status e de refinamento cultural. A par das peças para uso doméstico, proliferaram as doações às igrejas e conventos recém-construídos. Assim se elevavam a patronos dos templos cristãos. Por junto, eram muitos a rivalizar em devoção e exibição de riqueza, entre nobres, capitães donatários do Funchal e de Machico, famílias estrangeiras abastadas (sobretudo de origem italiana; ex: Acciaioli e Lomelino), a burguesia rural enriquecida pelo canavial açucareiro, além do clero (destacando-se a ordem franciscana). Na corte lisboeta, nobres e soberanos foram pródigos em presentear o novo arquipélago. De D.Manuel I vieram 3 dezenas, só chegadas ao destino após a morte do rei. O generoso presente incluía uma cruz processional dourada, especialmente bonita e de dimensões expressivas, em estilo manuelino:   

A proximidade dos visitantes permite perceber o tamanho invulgar desta cruz manuelina, do Museu de Arte Sacra do Funchal.

Quando foi encerrada a feitoria portuguesa da Flandres, a mando de D.João III (15 de Fevereiro de 1549), as encomendas transferiram-se para os ateliers da metrópole, em especial para Lisboa, onde já trabalhavam artistas de outras nacionalidades. À data, a capital era uma cidade cosmopolita e mega hub do circuito comercial dos bens mais exóticos. Por isso, vários madeirenses fizeram fortuna com as preciosidades indianas que desembarcavam à beira Tejo, levando depois para as ilhas: lacas, marfins e porcelanas. Destacou-se o mercador e capitão da viagem a Macau - Tristão Vaz da Veiga - referido pelo cronista Gaspar Frutuoso em «As Saudades da Terra». Outros escritores, como Gomes Eanes de Zurara, encarregaram-se de narrar para a posteridade esses primeiros tempos, onde não faltou o fascínio pela natureza luxuriante no Porto Santo, majestosa e indomável na Madeira.

Nas obras trazidas para o MNAA sobressaem: a Virgem e o Menino (séc. XV); o Retábulo dos Reis Magos originário de Antuérpia (séc. XVI); ou o Tríptico de Nossa Senhora da Misericórdia (1529) ladeada pelos santos Cristóvão, Paulo, Pedro e Sebastião, da autoria do flamengo Jan Provost, postados abaixo para servir de aperitivo: 

Fotogr. de Pedro Clode.

O segundo e terceiro retábulos constaram do gin anterior, postado a 3 de Janeiro.


As peças de ourivesaria dão especial brilho à exposição, colocadas em vitrinas que permitem desfrutá-las em 360º . 


Como sublinha o Director do MNAA, este espólio é invulgar na natureza e na escala, merecendo lugar de honra no Museu que é vitrina mundial do escol da arte portuguesa. A não perder.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)

___________________________
(1)   Horário: Ter-Dom 10.00-18.00.  Entrada gratuita aos clientes da CGD que façam prova mediante apresentação de cartão da Caixa.  http://www.museudearteantiga.pt/.  Ciclo de conferências sobre esta mostra: 11 janeiro 2018 | 25 janeiro 2018 | 8 fevereiro 2018 | 1 março 2018. 


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Dos elogios fúnebres

Índia, Janeiro de 2017


Admito o meu erro e admito que o elogio que agora faço seja extensível a outras nações. Admito ainda  a minha (quase) total ignorância sobre o assunto. Vamos lá, então, passada a introdução curta e inútil. Todo eu sou anglófilo. Não me vou alongar sobre o que aprecio no Império Britânico porque tenho um amigo que se abespinha com o tema. E como ele é visitante do estabelecimento não o quero afugentar. Ser anglófilo não inibe o meu olhar crítico. Gosto de tudo - mesmo das coisas de que gosto menos.

Parece-me que os ingleses têm uma forte tradição no elogio fúnebre. Morre alguém, mesmo gente que não se celebrizou por nada em especial, apenas por cultivar rosas na sua pequena casa no campo e outro alguém, lembrando o seu passamento, lhe redige umas linhas, lembrando quem era e o que fez. É uma tradição bonita, que promove o exercício da memória e que dá aos amigos e familiares sobrevivos um olhar talvez diferente sobre o finado.

Gostaria de ler mais elogios fúnebres. Não porque seja um lado macabro que me assalta, mas porque me interessa ver o que retemos dos outros. O que contamos da senhora idosa que fazia caridade e cultivava rosas na sua pequena aldeia do norte de Inglaterra? Retemos uma história que nos faz rir? Uma fisionomia bonita ou agreste? Um traço de carácter ou uma mania? Um modo de vida em casa? O que fixamos nos outros? O que nos outros é importante para nós? Ler o que dizemos de terceiros diz muito, não só desses terceiros, obviamente, mas também de nós. Porque revela o que valorizamos, o que vemos, o que fixamos: umas mãos, um apetite voraz, uma frase a meio de um jantar, uma intersecção com a nossa vida, um toque com impacto numa existência, uma peculiaridade de feitio. 

JdB

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Textos dos dias que correm

Purificar a escuta

«Todos se calaram para que a primeira palavra, a primeira frase a chegar ao cérebro virgem do bebé fosse uma poesia, um verso antigo e melodioso. Não uma palavra da parteira ou o grito de uma tia, não uma palavra banal saída da boca de uma vizinha.»

Segundo a tradição muçulmana, mal o bebé sai do ventre da mãe deve-se sussurrar ao ouvido a profissão de fé e o convite à oração. Nenhum outro som humano ou natural deve entrar primeiro no terreno virgem da escuta, que é também símbolo de obediência.

Análogo é o que acontece na Pérsia, na narrativa de Kader Abdolah, escritor nascido no Irão em 1954, refugiado na Holanda em 1988 e que desde então escreve em neerlandês. O evento é narrado no seu delicioso romance “Escritura cuneiforme”.

A ideia é verdadeiramente sugestiva. Infelizmente temos os ouvidos sujos de demasiadas palavras más e inúteis; a escuta é obstruída por uma avalanche de sons ordinários, ditos vãos, expressões tantas vezes vulgares. É necessária uma purificação que devia iniciar-se idealmente com os bebés, cujo cérebro ainda virgem é bem depressa semeado de urtigas e erva daninha.

O pensamento corre para uma poesia de uma escritora judaica alemã, Nelly Sachs (1891-1970), também ela obrigada ao exílio, no seu caso a Suécia, por causa do nazismo.

Na poesia “Os profetas” há este refrão, que nos interpela: «Se os profetas irrompessem pelas portas da noite e procurassem um ouvido como pátria, ouvidos dos homens obstruídos de urtigas, saberíeis escutar?».


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: SNPC
Publicado em 13.01.2018

domingo, 14 de janeiro de 2018

2º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Jo 1,35-42

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo,
estava João Baptista com dois dos seus discípulos
e, vendo Jesus que passava, disse:
«Eis o Cordeiro de Deus».
Os dois discípulos ouviram-no dizer aquelas palavras
e seguiram Jesus.
Entretanto, Jesus voltou-Se;
e, ao ver que O seguiam, disse-lhes:
«Que procurais?»
Eles responderam:
«Rabi – que quer dizer ‘Mestre’ – onde moras?»
Disse-lhes Jesus: «Vinde ver».
Eles foram ver onde morava
e ficaram com Ele nesse dia.
Era por volta das quatro horas da tarde.
André, irmão de Simão Pedro,
foi um dos que ouviram João e seguiram Jesus.
Foi procurar primeiro seu irmão Simão e disse-lhe:
«Encontrámos o Messias» – que quer dizer ‘Cristo’ –;
e levou-o a Jesus.
Fitando os olhos nele, Jesus disse-lhe:
«Tu és Simão, filho de João.
Chamar-te-ás Cefas» – que quer dizer ‘Pedro’.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Pensamentoa Impensados

Corpos
A figura que representa Adão, pintada por Miguel Angelo e que está na Capela Sixtina, está anatomicamente errada: Adão não tinha umbigo.

Trânsitos
Qual será mais difícil? A Rua da Escola Politécnica, em Lisboa, ou o Rali Dakar?

Palavras Cruzadas
As Cruzadas foram uma santa causa sem misericórdia.

Nova gramática
Competitivo é o Particípio Anacrónico do verbo competitir.

Acordos
Os portugueses introduziram-se se no Brasil graças ao Tratado de Introduzi-las.

Haja saúde
Governo prepara-se para proibir que se deite sal na neve.

SdB (I)

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Textos dos dias que correm

Olhos abertos ou fechados?

«Toda a iconografia cristã representa os santos com os olhos abertos para o mundo, enquanto que a iconografia budista representa cada ser com os olhos fechados» (Gilbert K. Chesterton, 1874-1936). Esta nota é interessante porque coloca em confronto duas atitudes diferentes, para não dizer opostas, no confronto com a realidade.

De um lado há a visão cristã “incarnada” na história, pronta a lançar uma semente de eternidade no mundo, a lutar contra o mal e a injustiça, a criar uma nova ordem de relações sociais e interpessoais.

Do outro lado há uma espiritualidade mais “introvertida”, inclinada a encerrar-se no mistério que cada criatura tem dentro de si, considerando-o como o microcosmo no qual se descobre Deus.

É fácil observar que ambas as perspetivas podem degenerar na prática. Não é raro, com efeito, ver a redução do cristianismo a puro compromisso caritativo, espoliando-o da sua dimensão mística e transcendente.

Como é frequente também no Ocidente a tentação de retirar-se em si mesmo, ignorando o mundo com as suas misérias, descolando da realidade quotidiana em direção a céus míticos e místicos.

É por isso necessário reencontrar a força do testemunho que arrasta, ter olhos bem abertos para lutar contra o mal, e ao mesmo tempo é indispensável reentrar em si mesmo na oração, para se alimentar na fonte da intimidade divina.

É só através deste equilíbrio entre o olhar exterior, vigilante e capaz de julgar, e o olhar contemplativo da alma que se tem a verdadeira espiritualidade.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: SNPC
Publicado em 11.01.2018

***

Procurar a chave do coração, que também abre a porta do Reino

«Naquele tempo, estava João Batista com dois dos seus discípulos e, vendo Jesus que passava, disse: “Eis o Cordeiro de Deus”. Os dois discípulos ouviram-no dizer aquelas palavras e seguiram Jesus. Entretanto, Jesus voltou-se; e, ao ver que O seguiam, disse-lhes: “Que procurais?” (Do Evangelho do II Domingo do Tempo Comum, João 1, 35-42)

«Que procurais?» As primeiras palavras de Jesus que o Evangelho segundo João regista são sob a forma de pergunta. Também na aurora da Páscoa, no jardim perto de Jerusalém, Jesus dirigir-se-á a Maria de Magdala com as mesmas palavras: «Mulher, que procurais?»

As primeiras palavras do Jesus histórico e as primeiras do Cristo ressuscitado, duas perguntas iguais, revelam que o Mestre da existência não se quer impor, não lhe interessa impressionar ou deslumbrar ou doutrinar, mas a sua paixão é fazer-se próximo, pôr-se ao lado, abrandar o passo para fazer-se companheiro de caminho de cada coração que procura.

Que procurais? Com esta pergunta Jesus não se dirige à inteligência, à cultura ou às competências dos dois discípulos que deixam João Batista, não interroga a teologia de Madalena, mas a sua humanidade.

Trata-se de uma interrogação a que todos são capazes de responder, cultos e ignorantes, laicos e religiosos, justos e pecadores. Porque Ele, o mestre do coração, faz as perguntas verdadeiras, aquelas que fazem viver: dirige-se antes de tudo ao desejo profundo, ao tecido secreto do ser.

Que procurais? Significa: qual é o vosso desejo mais forte? O que é que mais desejais acima de tudo da vida? Jesus, que é o verdadeiro mestre e exegeta do desejo, ensina-nos a não nos contentarmos, ensina fome de céu, salva a grandeza do desejo, salva-o da depressão, do apequenamento, da banalização.

Com esta simples pergunta – que procurais? – Jesus dá-nos a entender que a nossa identidade mais humana é ser criatura de procura e de desejo. Porque a todos falta alguma coisa: com efeito, a procura nasce de uma ausência, de um vazio que pede para ser preenchido. O que é que me falta? De que coisa me sinto pobre?

Jesus não pede em primeiro lugar renúncias ou penitências, não impõe sacrifícios sobre o altar do dever ou do esforço, pede acima de tudo que voltes a entrar no teu coração, que o compreendas, que conheças aquilo que mais desejas, aquilo que te faz feliz, o que acontece no teu íntimo. Pede-te que escutes o coração. E depois que o abraces, «encostar os lábios à fonte do coração e beber» (S. Bernardo).

Os padres antigos definiam este movimento como o regresso ao coração: «Encontra a chave do coração. Esta chave, verás, abre também a porta do Reino» (S. João Crisóstomo). Que procurais? Para quem caminhais? Eu sei: caminho para aquele que faz feliz o coração.


Ermes Ronchi 
In Avvenire 
Trad. / edição: SNPC 
Imagem: /Bigstock.com 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Da velhice

De um ponto de vista da mais absoluta seriedade, posso afirmar que tive sorte na vida: em primeiro lugar, porque parte substantiva da minha existência foi fagueira, rodeado de gente que queria fazer-me feliz e rodeado de acontecimentos que me deram um gozo imenso; em segundo lugar, não obstante os momentos difíceis que vivi, senti sempre uma forte rede social a impedir-me de soçobrar: amigos que me falaram, me ouviram, de mim discordaram, me fizeram companhia ou me desafiaram.

De um ponto de vista da mais discutível seriedade, posso ainda continuar a dizer que tive sorte na vida porque nunca fui jovem. Eu explico a frase críptica. Este domingo, jantando com amigos, ouvi alguém lamentar-se, com um quase soluço de alma, que ia fazer 61 anos durante 2018. A mim, que sou de um ano diferente, ocorreu-me aquela frase que tem tanto de verdade como de calista: a idade é mental. Se nos sentimos novos estamos novos; se não, não. A frase não deu alento a ninguém: nem a quem a proferiu (poucas frases há mais enervantes do que esta) nem a quem a ouviu, porque 61 anos são 61 anos...

Ora, a minha sorte não reside no facto de dizer frases patetas - e reconhecer - mas no facto de nunca ter sido novo. Tenho a sensação de que nasci, fui criança, jovem adolescente e jovem adulto com o anátema de uma certa velhice a cobrir-me as costas. E explico: enquanto a minha geração se agitava furiosamente ao som do pop ou do rock (não sei bem a diferença) eu já preferia a música clássica; não era grande frequentador de boites, preferindo o remanso de uma casa de amigos; nunca fui folião nem tenho corpo para ter um ar contente, não me assenta bem; viajei sozinho com prazer e sem incómodos; rio-me e divirto-me com gente que tem graça, não com gente que faz graças; nunca gostei do Carnaval, da passagem do ano ou de lançar serpentinas; não prego partidas, detesto que mas preguem; sou nostálgico, olho permanentemente para o meu passado, mesmo que o passado tenha mais de 40 anos; acho literariamente brilhante a ideia do no meu tempo é que... Por último, desde há muito tempo que gente diferente, em tempos diferentes, me diz, num misto de ternura, gozo e horror, que eu pareço um velho.

A frase, repetida desde há muito, de que pareço um velho, é salvífica. Pareço um velho agora e parecia um velho aos 20 anos. Talvez parecesse um velho aos 10, embora ninguém mo referisse, porque os alemães com quem estudava estavam afadigados a ensinar o aparelho digestivo da vaca e a dentição do coelho na sua bonita língua - e só isso se revestia de uma seriedade esgotante. Então, para me apressar na conclusão do raciocínio temente da debandada geral, posso responder a quem me pergunta como me sinto no momento da mudança de década: estou como se tivesse 18 anos; melhor, como se tivesse 15, ou talvez 7. No fundo, no fundo, estou como sempre estive - não envelheci. Os anos não parecem passar porque não sinto qualquer mudança. Sou o que sempre fui.

***

Sábado fui ao casamento de um amigo. Vi, e revi, gente que faz parte da minha vida desde que eu tinha 13 anos. Fui inundado por uma torrente, que em mim é inesgotável, de nostalgia de velho. Até nisso tenho sorte: não me mexo para fazer mais amigos; mas, não obstante, vou fazendo amizades e vou sempre olhando para trás, para os ciclos da vida onde eles se encaixam - e alguns muito bem, apesar de relativamente recentes. A construção da amizade é sempre um olhar sobre o passado; a constatação da amizade é sempre uma análise retrospectiva, porque o passado é certo, e no futuro talvez haja traições, afastamentos, palavras amargas ou injustas. Temos amigos porque temos passado em comum, não porque temos futuro em comum. O raciocínio é imbatível - ainda que de velho.

Sejam felizes.

JdB

      

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Poemas dos dias que correm

S. Miguel, Açores, Maio de 2015


Requiem por Mim

Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.

Miguel Torga, in 'Diário (1993)'

***

Já Velho e Doente

«Seja a terra da Terceira 
A minha coberta de alma», 
Disse eu na idade fagueira, 
Em que tudo é força e calma. 

Mas hoje, já velho e doente, 
Em que as almas não se cobrem, 
Hoje sim, peço seriamente 
Que os sinos por mim lá dobrem. 

Até já me aconselharam 
Um quarto lá no Hospital, 
Tanto caipora me acharam, 
Escaveirado, mal, mal... 

Ali visitas teria 
Por obra de misericórdia, 
Embora comida fria, 
Alguma vez, que mixórdia! 

Mas sempre era doce ao peito 
Ir acabar os meus dias 
Na Praia, de qualquer jeito, 
Perto da casa das tias. 

Tive o exemplo resignado 
Que me deu a prima Alzira 
Num lençolinho lavado 
Com rendas limpas na vira. 

Ali matámos saudades, 
Ela alegre e penteadinha, 
Mal pensando eu que as idades 
Não perdoam. Hoje é a minha. 

Também cheguei a pensar 
No Asilo, talvez com um biombo. 
Sou biqueiro. Mas jantar? 
Todos ali, lombo a lombo. 

Como outrora o Tintaleis, 
Três-Quinze, Manuel de Deus 
Eram duas vezes seis, 
Lava-Pés, e Pão-por-Deus. 

Mas já sei que nem no hotel! 
(A família não consente). 
Tenho que amargar o fel 
Mortal como toda a gente 

Morrer num navio, à proa, 
Numa aldeia ou num porão, 
Provavelmente em Lisboa 
Prò Alto de S. João. 

Se acaso em Ponta Delgada 
Me fosse dado ter fim: 
Queria a última morada 
Com Antero, em S. Joaquim. 

O melhor é não pensar. 
É seja onde Deus quiser. 
Bem me podem sepultar 
Ao pé de minha mulher. 

Vitorino Nemésio, in "Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga" 

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