sábado, 26 de maio de 2018

Pensamentos Impensados

Descoberta macabra
O morto estava com aspecto de cadáver, estava estável e nu do pescoço para cima.

Reuniões secretas
Vejo na TV qualquer coisa relacionada com os pensadores portugueses, e eu não sou mencionado; inveja ou ignorância?
Tirando o consagrado Dalai Lima, quem  é que publicou mais de 3000 pensamentos? Eu, que penso o pior disto tudo.

Solitudes
Adão: Mãe há só uma.
Deus: Voltaste a beber!

Erupções
O vulcão mais activo do Mundo, no Havai, deveria chamar-se Marcelo.

Classificações
Conheço uma pessoa de apelido Mil Homens; deve ser uma Pessoa Colectiva.

Cabeças
O senhor Enve Lopes foi o inventor do sobrescrito.

Provérbio futebolista
A trave pode ser um entrave.

SdB (I)

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Textos dos dias que correm

Monsaraz, Abril 2018


O nada e o tudo

«As crianças encontram o tudo no nada; os homens o nada no tudo.» O "Zibaldone" de Giacomo Leopardi (1798-1837) revela a genialidade absoluta deste poeta italiano. Basta apenas permanecer por um instante numa frase fulgurante como a que citamos hoje.

Ao pequeno é suficiente um cabo de vassoura para criar um cavalo, um pouco de areia para conceber um castelo, uma folha branca para evocar o céu e a terra.

Tornado adulto (ou feito adulto já desde pequeno com os inapropriados jogos eletrónicos a ele impingidos pelos pais), nunca ficará satisfeito com nada, mesmo que possua palácios, viaje pelo mundo ou tenha tudo o que deseja.

Esta é uma variante daquela lei que Jesus formulou assim: «Que vantagem terá o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma?» (Mateus 16, 26).

Sem alma, o tudo torna-se nada, o possuir é vazio, a existência é vã, o mundo é uma realidade insignificante. É também por isso que Jesus nos repete: «Se não vos tornardes como as crianças, não entrareis no reino dos céus» (Mateus 18, 3).

É preciso, portanto, reencontrar o gosto do deslumbramento, a capacidade de descobrir num grão de areia um microcosmo, na flor a beleza, na vida um sentido, nas coisas um estigma do infinito, nas horas uma semente de eternidade.

É esta a função da poesia, da arte, da música. Mas esta é sobretudo a missão da fé que em cada instante te faz intuir a presença de Deus que te interpela e te chama a uma tarefa gloriosa.


P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: SNPC
Publicado em 24.05.2018

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Poemas dos dias que correm

esta manhã, tropecei num poeta fulminante.
li milhares de poemas, fui milhares de poetas,
e aparece do nada, vindo de outro século,
um homem que escreve sobre outra cidade,
e que, contudo, escreve com a minha exacta mão,
estes meus olhos, a totalidade do meu coração.
pensava numa só palavra*, ao lê-lo.
e eis que, nem duas páginas à frente, 
me assalta um poema intitulado "home".
homens esperam, em todos os sítios,
pelo amor de jovens eternas raparigas.
e de cidades que os encham de ternura,
mais bruta ou mais gentil ou algo a meio,
em finos teatros e em tugúrios perdidos.
uma vez na vida, se tanto, encontram-no/a,
mas seguem > seguem > seguem > seguem,
cegos pela maquinal rotina que os devora.
cidades, mulheres, estrelas - quem as vê?
quem captura, para a fugidia posteridade,
a verdadeira essência do rio colectivo,
onde cada partícula é, ao mesmo tempo,
o universo todo - e vice-versa?
ergo o olhar, ajoelho, saúdo-te: Carl Sandburg.
estejas onde estiveres, olhes-me de onde olhares,
és a mão que escreve estes versos.

(* a palavra era: casa.)

gi.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Vai um gin do Peter's?

SÓ ESCHER PARA JUNTAR BACH E PINK FLOYD;  COM OBRA EXPOSTA EM LISBOA

Até ao próximo Domingo, 27 de Maio, decorre no Museu de Arte Popular, junto ao Padrão dos Descobrimentos, a mostra de 200 gravuras do artista gráfico holandês Maurits Cornelis Escher(1) [1898-1972], cujo surrealismo marcou o mundo da cultura, alargando-se à matemática, psicologia, alta costura, publicidade, etc. Basta descobrir a sua obra para perceber como continua a ser glosado. Até a publicidade do IKEA foi contagiada pela Eschermania, conforme se prova no final do circuito expositivo.   

O acervo exposto provém da Fundação Escher[http://www.mcescher.com/] e da colecção do italiano Federico Giudiceandrea, contendo algumas das litografias mais emblemáticas de padrões geométricos que se metamorfoseiam ad infinitum ou as construções impossíveis que continuam a maravilhar o mundo. 

Em 1969, os Pink Floyd conseguiram uma capa para o seu disco «Yet another movie»; mas Mick Jagger viu recusado o pedido para a capa do «Let it bleed», em 1968. Nessa década do Flower Power a nova geração intuía com lucidez o vanguardismo de Escher, defensor de ideias arrojadas e carismáticas como: «Só quem tenta o absurdo, consegue o impossível». 

A exposição segue um rumo cronológico, evidenciando as diversas etapas do seu percurso artístico, começando pela Arte Nova e os efeitos de ilusão óptica. Da infância, conta que ficou marcado pelos trompe d’oeil pintados no tecto da casa dos pais. 


«Ondas», 1918. Aguarela em cinzentos e vermelhos.

Nos estudos, o mestre holandês de grafismo Samuel Jessurun de Mesquita (1868-1944) guiou-lhe os primeiros passos, incutindo-lhe um rigor que conferiu maior substância à criatividade de Escher, invulgarmente esmiuçada ao pormenor. Sempre agradecido, Maurits dedicou-lhe uma obra, quando soube que tinha morrido em Auschwitz, simplesmente por ser judeu (de provável ascendência portuguesa). 

Entre 1921 a 1936, vagueou por Itália, apaixonado pelo país e também por Jetta Umiker – filha de um empresário suíço, que ali conheceu e com quem veio a casar. Maravilhou-o a beleza da paisagem e a beleza da arquitectura, o extraordinário equilíbrio dos volumes, no fundo, muito ousado e difícil de alcançar. Em Roma, privilegiou as observações nocturnas para se poder concentrar melhor no esqueleto arquitectónico. Costumava dizer: «Quem se maravilha com alguma coisa, descobre que [essa atitude] é uma maravilha em si mesma».


«Catedral Submersa», 1929

«Roma e o Grifo Borghese», 1927.
Bastavam-lhe linhas rectas e curvilíneas para tecer um entremeado denso,
que reproduzia na perfeição a realidade observada.

A partir de 1936, a ferocidade explícita do regime de Mussolini, conduziu-o a outras paragens europeias, em especial a Suíça e a Bélgica (até 1940). É também desta fase a descoberta da beleza geométrica dos monumentos muçulmanos do sul da Europa. Alhambra (1238-1492) inspirou-lhe 17 estudos sobre modalidades de preenchimento, a partir de formas simples como triângulos, quadrados e círculos, em tesselações que usavam o contraste para obter novos efeitos e produzir novas percepções. Além da diferenciação por contraste, jogava também com a semelhança gradual, até à fusão das formas, quando se rompia o estaticismo dos dados iniciais e estes deslizavam para outros formatos, gerando movimento. O conjunto final acabava por impor uma nova leitura, que mal deixava adivinhar os elementos primários que o compunham. À regularidade da arte maometana, Escher acrescentou figuras, replicando-as com a mesma técnica padronizada. Curiosamente, esta é também a génese da azulejaria portuguesa. 

«Progressivamente menor», 1956

A partir dos anos 40, a busca de novos universos, capazes de estimular novas percepções, passou a marcar a sua obra, explorando incessantemente modos inovadores de cruzar e entrelaçar elementos simples. Jogava, sobretudo, com o branco e o preto, que baralhavam o cérebro humano: «Os nossos olhos estão habituados a fixar objectos específicos».

«Metamorfose I», 1937.
A mais conhecida das «Metamorfoses» é a III, datada de 1967 –
concebida para a sede dos Correios holandeses, em Haia.

A posterior investigação do espaço, levou-o ao estudo exaustivo da matriz dos cristais e das superfícies topológicas, como as fitas de Möebius, evoluindo para uma etapa mais abstracta e de base matemática. Mergulha, então, no zoom; no quadro-dentro-do-quadro repetido exaustivamente como bonecas-matrioskas; na deformação das formas como se fossem moldáveis; nas imagens distorcidas quando reflectidas em superfícies espelhadas convexas ou côncavas; nos paradoxos, antecipando-se a Magritte; por junto, no constante ludíbrio que procurava atirar a realidade conhecida para um patamar onde adquiriria novo visual e só na aparência era regido pelas leis do planeta Terra. 

«Encontro», 1944

«Três esferas», 1945.
Distorções intencionais destinadas a explorar novos paradoxos geométricos.

A invulgaridade de Escher está na origem desta busca insaciável, alimentada pela sua especial afeição pela realidade, nomeadamente pela riqueza infinita do mundo natural, à primeira vista simples e monótono. Cedo percebera a incomensurabilidade que se esconde na mais ínfima expressão da natureza, a começar pelas tramas esfarrapadas de musgo ou pelo rendilhado semi-oculto da folha de árvore mais banal: «Desejo encontrar a felicidade nas coisas pequenas, num bocado de musgo (…), copiar estas coisas infinitesimalmente pequenas, com tanta precisão quanta é possível». Por isso, encontrou terreno fértil tanto no micro como no macrocosmo, ali desbravando modelos para reformular e reinventar as matrizes conhecidas. 

«Gota de orvalho», 1948

«Dia e Noite», 1938.
Recorre às leis da percepção – o gestaltismo («psicologia da boa forma») –
para nos ludibriar com reflexos e “clonagens” em movimento,
numa viagem às infinitas recomposições das formas.

Conseguiu também impregnar de humor as acrobacias matemáticas das suas produções surrealistas, embora não o movesse o mero sentido lúdico. Era sobretudo animado por uma curiosidade perscrutadora, semelhante à do cientista, rigorosa até ao mais ínfimo detalhe. Uma vez processados os dados, propunha-se esticar a lógica até ao impossível, qual filósofo. Dizia: «A ordem é a repetição da unidade. O caos é a multiplicidade sem ritmo.» Nas suas descobertas sobre a organização do cosmos, irritava-o a falta de originalidade das construções humanas, escusadamente espartilhadas em banais ângulos rectos. 

«Mãos a desenhar», 1948


Chanel adorou e replicou a elegância das suas geometrias harmoniosas e bem dispostas. Empresários e magnatas encomendaram-lhe, ano após ano, cartões de aniversário e convites para festas privadas. 



Nos anos 50, Escher movia-se com incrível naturalidade por entre estruturas impossíveis, que mantinham um nexo lógico a equivocar o cérebro, tornando as suas obras intrigantes. 

«Relatividade», 1953.
Escadas impossíveis de usar com figuras sujeitas a forças de gravidade
desencontradas, apesar de coabitarem espaços contíguos e aparentemente interligados.
Desta forma, visava libertá-las da lei da gravidade. 

Especificamente, na «Galeria da Gravura» (1956), o holandês preferiu deixar em branco o ponto de fuga. Essa lacuna entusiasmou uma equipa de matemáticos, liderada por Leustra, que quis resolver o enigma lançado por Escher. Demorou meses até apresentar uma solução de preenchimento do espaço em aberto (2003), conforme se vê na exposição. 

Espantoso um artista fã de Bach apaixonar os rockers com idade para serem seus netos! Espantoso o alcance da sua arquitectura do absurdo demonstrar a validade dos diferentes pontos de vista de cada observador, que podem chegar a resultados opostos. Espantosa a sua ânsia de infinito, representando-o em formas inéditas que desejavam suplantar as possibilidades oferecidas pelo mundo visível. 

No fundo, percebe-se por que a genialidade meticulosa de Escher aguentou tão bem o exigentíssimo teste do tempo, catapultando-o para a intemporalidade. 


Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)
_________________________
(1) http://escherlisboa.com/ .  Horário – Todos os dias, das 10h00 às 20h00, mas a última entrada é às 19h00, hora em que encerra a bilheteira. Tel. para info sobre bilhetes e reservas – 21 034 30 80.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Duas Últimas

No que diz respeito às minhas escolhas musicais, grande parte das vezes sou um homem precocemente velho; grande parte das vezes sou um homem triste. Talvez na totalidade das vezes - embora a equação matemática esteja completamente errada, porque a soma das partes não pode ser maior do que as partes juntas - eu seja um homem velho e triste. A música feliz não me contenta, a música triste não me entristece. 

O momento mais alegre do casamento real foi protagonizado pelo coro que cantou Stand By Me em versão gospel. Não gostei, não porque fosse alegre ou fosse um gospel, mas porque o ritmo me pareceu pouco gospeliano. Faltava-lhe ali, na minha opinião, um ritmo mais acentuado. No sentido oposto, o momento mais triste foi magnificamente protagonizado por um jovem violoncelista, um absoluto talento da Serra Leoa, por aquilo que li. Será visita do estabelecimento, um destes dias.

Na minha cabeça musical de velho e triste há uma solenidade / espiritualidade / recolhimento num casamento daquele tipo que tem de ser dado por um ritmo que seja igualmente solene, espiritual e propício ao recolhimento. Nesse sentido a selecção musical merece nota máxima. 

Deixo-vos com um canto muito bonito, não triste, mas propício à elevação. O coro é magistral, as filmagens idem idem aspas aspas. Talvez haja gente com ar maçado no casamento, como haverá gente com ar maçado que parará a música 30 segundos depois dela ter começado. É assim - caso eu quisesse maior unanimidade ia para a Coreia do Norte.

The Lord Bless You and Keep You. Um bom desejo para quem casou este sábado, ou para quem casou ontem mas há dois anos, ou para quem casou há mais tempo ou para quem vive tempos mais difíceis ou mais felizes. No fundo no fundo, para todos.

JdB

Da água, do sporting e do casamento real

Nota prévia: este post estava escrito na minha mente desde sábado à tarde, pelo que os infaustos acontecimentos de ontem no Jamor nada têm a ver com o texto. 

***

Num passado menos recente alguém levou uma porção de água ao frio. Assim que o líquido solidificou, isto é, se tornou gelo, fez-se um risco numa régua. Estava definido o ponto de congelação: 0ºC. Depois, esse mesmo alguém agarrou em porção semelhante de água e levou-a ao calor. Logo que esta levantou fervura, fez-se outro risco na régua. Estava definido o ponto de ebulição: 100ºC. 

***

Durante os últimos dias segui com um interesse mórbido e masoquista a novela protagonizada por esse homem perigoso e doente chamado Bruno de Carvalho. Segui nos jornais, vi na televisão, ouvi aquela voz que, por trás de uma aparente calma, revela um mente absolutamente incapaz para gerir um clube de futebol que se pretenda digno. Como sportinguista - embora pouco ferrenho e pouco interessado - tive vergonha. Como português que percebe quem está à frente dos três maiores clubes de futebol tive vergonha. O futebol é uma associação de malfeitores e, neste momento, Bruno de Carvalho é o mais proeminente de todos. A minha indignação nada tem de original.

***

Sábado, em directo e em diferido, segui o casamento do príncipe Harry e de Meghan, a mulher que ele escolheu para o acompanhar na vida. Não vou tecer muitas considerações sobre o facto de ela ser quem é, ter o passado que tem, o enquadramento familiar que é o seu. Desejo que sejam felizes e que o afecto que ele demonstra claramente por ela seja correspondido. Vi tudo com atenção, embora não me prenda a pormenores que a outros interessam muito: o custo de tudo,  o vestido dela, os chapéus dos convidados, o conto de fadas. Interessa-me a organização, a tradição, o rigor, a atenção ao pormenor, a estética da igreja e da escolha das músicas, os pequenos pormenores que revelam que nada é deixado ao acaso.

***  

O que liga o Sporting - neste caso corporizado por Bruno de Carvalho - e o casamento real? A mesma coisa que liga uma água gelada a uma água fervente: ambos os estados são os extremos de um contínuo; entre um e outro há uma convenção de 100ºC de diferença. Bruno de Carvalho é tudo o que não queremos ser de indignidade, de achincalhamento a uma história clubista longa e honrosa, ainda que manchada aqui e ali. O casamento representa o outro extremo deste contínuo que é a vida - ou que é a minha vida: o respeito pela tradição, a ousadia do rompimento, a actualização da modernidade sem esquecer os séculos precedentes. Entre um extremo e outro o conjunto intersecção só existe porque existem pessoas numa e noutra realidade. Ver Bruno de Carvalho a destruir um clube enoja-me; ver uma cerimónia como aquela que vi no sábado é o elixir que limpa o palato do sabor a vómito.

***  

Alguém me dizia, sábado de tarde, que a homilia do casamento real não tinha sido muito apreciada. Ouvi toda e percebo que não tenha sido apreciada. Na realidade, há uma espécie de actuação teatral pouco comum aos costumes ingleses. Mas vale a pena ouvir os primeiros 5 minutos e deixar o tema a ressoar dentro de nós: o amor consegue tudo. Não perceber isto é não perceber algumas coisas importantes da vida. Não o amor de conto de fadas que está a encantar meio mundo, mas o amor entrega, sacrifício, dádiva, conquista, construção, partilha. 

JdB

domingo, 20 de maio de 2018

Solenidade do Pentecostes

EVANGELHO – Jo 20,19-23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,
veio Jesus, colocou Se no meio deles e disse lhes:
«A paz esteja convosco».
Dito isto, mostrou lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.
Jesus disse lhes de novo:
«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou,
também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou sobre eles e disse lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser lhes ão perdoados;
e àqueles a quem os retiverdes serão retidos».

sábado, 19 de maio de 2018

Pensamentos Impensados

Cópias
Se eu der quatro espirros, três são plágio.

Repouso
Os espanhóis criaram a sesta, os americanos o sábado e Deus o domingo.

Vozes
O contralto tem  quase voice male.

Frases ocas
É um diamante em bruto, precisa ser lapidado, é uma frase lapidar.

Morfeu
Leio no CM que um tipo dormiu com 2.000 homens depois de mudar de sexo. O que ele tinha era sono...

Amizades
O Alexandre  dumas era amigo, doutras nem por isso.

Deslarga-me
A nossa sombra é a coisa mais maçadora que existe: não nos larga, copia tudo o que nós fazemos. Mas que falta de imaginação!

SdB (I)

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Declarações dos dias que correm *

Cuidar até ao fim com compaixão – declaração inter-religiosa

O debate em curso na sociedade portuguesa sobre a realidade a que se tem chamado “morte assistida” convoca todos a realizarem uma reflexão e a oferecerem o seu contributo para enriquecer um processo de diálogo que necessita da intervenção da pluralidade dos atores sociais. As Tradições religiosas são portadoras de uma mensagem sobre a vida e a morte do homem, bem como sobre o modelo de sociedade que constituímos, e é legítimo e necessário que a apresentem, com humildade e liberdade.

Agora que a Assembleia da República vai discutir e colocar em votação propostas de uma eventual lei sobre a eutanásia, nós, as comunidades religiosas presentes em Portugal signatárias, conscientes de que vivemos um momento de grande importância para o nosso presente e o nosso futuro coletivo, declaramos:

1. A dignidade daquele que sofre

Acreditamos que cada ser humano é único e, como tal, insubstituível e necessário à sociedade de que faz parte, sujeito de uma dignidade intrínseca anterior a todo e qualquer critério de qualidade de vida e de utilidade, até à morte natural. A vida não só não perde dignidade quando se aproxima do seu termo, como a particular vulnerabilidade de que se reveste nesta etapa é, antes, um título de especial dignidade que pede proximidade e cuidado. Assumimos que todo o sofrimento evitável deve ser evitado e, por isso, estamos gratos porque o desenvolvimento das ciências médicas e farmacológicas alcançou um tal patamar de desenvolvimento que permite o eficaz alívio da dor e a promoção do bem-estar. Contudo, não ignoramos o carácter dramático do sofrimento e a dificuldade de que se reveste a elaboração de um sentido para o viver. Sabemos que a religião oferece uma possibilidade de sentido a quem acredita, mas sabemos também, pela experiência do acompanhamento de tantos que não são religiosos, que não depende de o ser a possibilidade de encontrar sentido para o próprio sofrimento. Com esses aprendemos, aliás, que nesta tarefa reside uma das maiores realizações da dignidade pessoal. A dignidade da pessoa não depende senão do facto da sua existência como sujeito humano e a autonomia pessoal não pode ser esvaziada do seu significado social.

2. Por uma sociedade misericordiosa e compassiva

O sofrimento do fim de vida é, para cada pessoa, um desafio espiritual e, para a sociedade, um desafio ético. Comuns às diferentes Tradições religiosas, princípios como a misericórdia e a compaixão configuraram, ao longo da história da civilização, modelos sociais capazes de criar, em cada momento, modos precisos de acompanhar e cuidar os membros mais frágeis da sociedade. Hoje, o morrer humano é um dos âmbitos em que este desafio nos interpela. O que nos é pedido não é que desistamos daqueles que vivem o período terminal da vida, oferecendo-lhes a possibilidade legal da opção pela morte, à qual pode conduzir a experiência do sofrimento sem cuidados adequados. Esse é o verdadeiro sofrimento intolerável, que cria condições para o desejo de morrer. Nasce de uma sociedade que abandona, que se desumaniza, que se torna indiferente. Confirma-nos nesta convicção a experiência de que quem se sente acompanhado não desespera perante a morte e não pede para morrer. O que nos é pedido é, pois, que nos comprometamos mais profundamente com os que vivem esta etapa, assumindo a exigência de lhes oferecer a possibilidade de uma morte humanamente acompanhada.

Acreditamos que os cuidados paliativos são a concretização mais completa desta resposta que o Estado não pode deixar de dar, porque aliam a maior competência científica e técnica com a competência na compaixão, ambas imprescindíveis para cuidar de quem atravessa a fase final da vida. A verdadeira compaixão não é insistir em tratamentos fúteis, na tentativa de prolongar a vida, mas ajudar a pessoa a viver o mais humanamente possível a própria morte, respeitando a naturalidade desta. Os cuidados paliativos fazem-no, valorizando a pessoa até ao seu fim natural, aliviando o seu sofrimento e combatendo a solidão pela presença da família e de outros que lhe sejam significativos. Interpelamos a sociedade portuguesa para corresponder à exigência não mais adiável de estender a todos o acesso aos cuidados paliativos e assumimos a disponibilidade e a vontade de fazermos tudo o que esteja ao nosso alcance para participar neste verdadeiro desígnio nacional. E não podemos deixar de interrogar se a presente discussão, antes de realizado este investimento, não enfermará de falta de propósito.

As Tradições religiosas professam que a vida é um dom precioso e, para as religiões abraâmicas, um dom de Deus e, como tal, se reveste de carácter sagrado; mas este apenas confirma a sua dignidade natural, da qual derivam a sua inviolabilidade e indisponibilidade intrínsecas, que, portanto, não dependem da fundamentação religiosa. Mas a religião confere à vida um sentido, uma esperança, uma outra possibilidade de transcendência. As sociedades precisam desta visão do humano ao lado de todas as outras.

Nós, comunidades religiosas presentes em Portugal, acreditamos que a vida humana é inviolável até à morte natural e perfilhamos um modelo compassivo de sociedade e, por estas razões, em nome da humanidade e do futuro da comunidade humana, causa da religião, nos sentimos chamados a intervir no presente debate sobre a morte assistida, manifestando a nossa oposição à sua legalização em qualquer das suas formas, seja o suicídio assistido, seja a eutanásia.


Por isso assinamos em conjunto a presente Declaração.

Lisboa, 16 de maio de 2018


Aliança Evangélica Portuguesa: Pastor Jorge Humberto, em representação do Presidente da Aliança Evangélica Portuguesa, Dr. Pedro Calaim

Comunidade Hindu Portuguesa: Sr. Kiritkumar Bachu

Comunidade Islâmica de Lisboa: Sheik David Munir

Comunidade Israelita de Lisboa: Rabino Natan Peres

Igreja Católica: Cardeal Patriarca D. Manuel Clemente

Patriarcado Ecuménico de Constantinopla: Arcipreste Ivan Moody

União Budista Portuguesa: Eng.º Diogo Lopes

União Portuguesa dos Adventistas do Sétimo Dia: Pastor António Carvalho, em representação do Presidente da União Portuguesa dos Adventistas do Sétimo Dia, Pastor António Amorim

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* retirado daqui

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Textos dos dias que correm

Florença, Maio de 2011


O Solitário

O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.

(...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite.

Miguel de Unamuno, in 'Solidão'

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O Solitário

As observações e as vivências do solitário que só fala consigo próprio são simultaneamente mais indistintas e intensas do que as do homem social e os seus pensamentos são mais graves, mais fantasiosos e nunca sem uma coloração de melancolia. Imagens e impressões que outros poriam naturalmente de lado após um olhar, um sorriso, um comentário, ocupam-no mais do que é devido, tornam-se profundas no silêncio, ganham significado, transformam-se em acontecimento, aventura, emoção. A solidão cria o original, o belo ousado e estranho cria a poesia. Mas cria também o distorcido, o desproporcionado, o absurdo e o proibido.

Thomas Mann, in "Morte em Veneza"

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Duas Últimas

O Mundo que conhecemos está cada vez menos recomendável, só que não sendo (ainda) possível emigrar para outro planeta, há que aguentar.

Aqui no nosso cantinho até que não nos pudemos queixar muito. Enquanto não nos mandarem a conta e os turistas aparecerem, vamos mantendo uma aparência menos mal.

Muito pior sorte têm outros. Não vale a pena enumerá-los, estão por todo o lado: África, Américas Central e do Sul, Médio Oriente, Indochina....Muitos milhões de almas.

Diariamente episódios horríveis, morte e sofrimento de gente e mais gente indefesa, perante a crescente indiferença geral. Pessoas que se preocupam, como o Papa, são completamente ignoradas, em sociedades em que Deus é recusado ou a religião é arma de arremesso contra outros.

Para ajudar, emergem em posições chave personalidades como Trump. A barbárie que ontem sucedeu em Gaza é um bom exemplo, e consequência, do que não pode ser feito. Ferindo sempre os que são social e economicamente mais fracos e vulneráveis, aqueles que não têm presente e que, vistas as coisas com frieza, dificilmente terão algum futuro. Infelizmente.

Por mais que a propaganda dominante nos queira fazer crer o contrário. Porque a culpa é sem dúvida de muitos, mas é sobretudo daqueles que, podendo fazer alguma coisa pelos outros, preferem invariavelmente assobiar para o lado.

Deixo-vos com uma música alegre, bem precisa, de um autor que tenho apreciado.

Espero que também gostem.

fq


terça-feira, 15 de maio de 2018

(Re)publicações dos dias que correm *

Do cenário

Abotoou o casaco assertoado azul que lhe assentava melhor desde que emagrecera por uma conjugação de nervos e disciplina, e pegou no microfone. Armado com competências de criatividade linguística, e temperado por uma convicção católica pré-Vaticano II [cruzes, inferno, Geena onde o verme não morre e o fogo nunca se apaga, culpa, etc.] disse com voz clara: 

Temos dois caminhos. Um sobe e o outro desce. 

Pelos trabalhadores [ou melhor, colaboradores, nesta modernidade inconsequente de achar as pessoas os nossos melhores activos] perpassou uma aragem de esperança, porque uma alternativa abre essa porta. Alguns sentiram fisicamente essa aragem, como se fosse a materialização de um porvir potencialmente feliz. 

O caminho que sobe leva-nos ao calvário. O caminho que desce conduz-nos ao inferno. No fundo é isto. Vamos reduzir e vamos aumentar, para que a empresa sobreviva. Aumentaremos os sacrifícios, reduziremos as regalias. 

O Director-geral coçou pensativamente uma parte da barba e rematou, já num tom de barítono em fim de vida útil: espero não ter sido excessivamente optimista.

Os trabalhadores entreolharam-se e identificaram a aragem de esperança: uma porta aberta no fundo do refeitório e uma corrente de ar com cheiro a vitela assada à lafões. 

Dos personagens

Alberto: engenheiro informático, especialista em sistemas da Qualidade, tem 32 anos e um casamento sem descendência que durou 14 meses. No fundo cumpri o ciclo de Deming (Plan, Do, Check Act). Quando fizemos a revisão do sistema havia demasiadas não conformidades. Não nos certificámos e a Júlia trocou-me por uma auditora chamada Laura, natural das Minas de S. Domingos, especialista em 6 Sigma. Monárquico, candidatou-se ao Observatório da Restauração por erro de raciocínio. Não estudou os conjurados e engordou dez quilos. 

Rogério: arquitecto, descontente com a profissão, concorreu à carreira diplomática defendendo o tema: O efeito de uma mesa descomposta no fracasso das negociações. Contribuições para o estudo da viuvez na história da diplomacia. Chumbou e remeteu-se a ansiolíticos durante dois anos, até ter-se cruzado com uma chinesa especialista em acupunctura, arte mandarim e churrasco no carvão. Têm dois filhos - Chiang e Pureza - que frequentam a catequese e o full-contact. 

Paula. É personal trainer mas já foi analista de laboratório. O trabalho em turnos baralhou-lhe o metabolismo, conduzindo-a a insónias terríveis e a uma especialização em televendas com sucesso em madrugadas invernosas. Tem uma altura média, pernas demasiado ginasticadas para a estética feminina, cabelo castanho comprido e uns olhos tristes. O seu sonho mais simples era ser feliz, conceito que não passa, como ela diz, por ajudar gordos a enfiarem-se num smoking para uma festa pindérica. 

Alberto e Rogério. Face à crise da empresa (reler Do cenário, acima) ambos têm excesso de tempo, pelo que entenderam que era altura de cultivar meticulosamente o físico (em itálico, porque a expressão é roubada). Até ao final da Primavera, disseram ambos. Contrataram Paula para um esquema em outdoor. Paredão do Estoril, das 7 às 8 da manhã. Parece-lhe bem, Paula? A ela pareceu-lhe bem, sempre podia comprar aquela frigideira indestrutível que anunciam por volta das 5 da manhã.

A história

Três vezes por semana, pelas 6.30h da manhã, os alunos recebem um sms de Paula com informações preciosas relativamente à meteorologia: humidade, visibilidade, nascer e pôr do sol, pressão atmosférica, ponto de orvalho, nível de UV, intensidade e direcção do vento. Seguem para o paredão onde o trio se cruza com as mesmas pessoas, inclusivamente alguém que os observa muito, como se fosse contar uma história e precisasse de vigiar os intervenientes. Durante um hora fazem flexões, elevações, treinam exercícios específicos, aprendem a função dos músculos. Paula é diligente, insistente, persistente. Rogério e Alberto perdem peso, eliminam adiposidades, graçolam sobre a dureza dos abdominais e a largueza das calças.

Com o decorrer do tempo Alberto, o engenheiro informático especialista em qualidade, demora o olhar sobre Paula. Onde antes via um tecido sintético de gosto indiferente e umas coxas demasiado musculadas, agora vê uma roupa suada em cima de um corpo suado. O que era odor passou a ser sensualidade, e a perspectiva de puxar aquela licra para desnudar uma personal trainer surge-lhe como um erotismo que perturba os sentidos. Os olhos tristes cativam-no, suscitam-lhe mãos piedosas por cima de um corpo com músculos trabalhados. [Poderia alongar-me na descrição das sensações, mas o texto vai longo e a clientela debanda para paragens mais sintéticas. Salto três cenas: a ideia de um croissant e um galão escuro na Garrett, o primeiro beijo discreto nuns lábios que se entreabriram, um convite claro sacudindo migalhas distraídas do fato de treino: gramava fazer amor contigo!].

Beijam-se intensamente no quarto de Paula [poderia descrever o quarto: posters de gatos, fotografias de um fim de semana em Tavira e de uma viagem a Marrocos, roupa espalhada num desarrumo de solteira, etc., mas encurto]. Alberto enebria-se com os cheiros, revolve os olhos, suspira ao puxar a licra para cima e para baixo [enfim, sempre são duas peças...] e não reprime um gemido ao ver a personal trainer, nua, esplêndida, espojada numa cama do Ikea comprada a preços de necessidade. Ela chama-o e ele avança, decidido, sôfrego, desejoso. Nesse momento cai no chão retorcido de dor, e a dor é tanta que obscurece o ridículo de um homem nu no chão [parquet mal encerado], enojado do suor próprio e alheio, raivoso contra a sua burrice de se atirar à ginástica, algo que só os Homens, de entre o reino da Criação, fazem [como beber leite em adulto]. Já não há desejo, há dor. Paula é apenas uma chamada de emergência numa nudez confrangedora, suada, com umas pernas demasiado musculadas, deixando no ar um hálito a galão escuro.

São os nadegueiros, Alberto, eu já te tinha dito que os nadegueiros - tanto o grande como o pequeno - tinham de ser mais treinados... Queres também fazer sábados? 

JdB

* publicado originalmente em 2 de Outubro de 2012    

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Poemas dos dias que correm

fui ao psiquiatra e mandei-o tomar banhos de sol.
era deprimente todo aquele espectáculo
e era ainda mais deprimente ser eu o único espectador.
disse-lhe, enquanto mirava a luz, lá fora:
- doutor, não me leve a mal, mas tenho pena de si,
todos os dias a repetir a mesma performance
e nunca melhora a qualidade artística do acto.
nunca mais lá voltei, claro. louco talvez, mas não idiota.
passados uns anos, olhei para o parque da cidade
e lá estava ele, igualzinho, a pregar qualquer coisa
a um desgraçado qualquer que se sentou junto dele.
ainda pensei intrometer-me, parar aquilo,
mas, que diabo, mesmo em mim há algum método científico:
por exemplo, guardar o apocalipse a uma distância segura.
de maneira que voltei a beber. não deixei de sofrer,
não conheço ninguém que tenha deixado.
mas ao menos poupei-me ao desolado embaraço
de assistir à patética performance
de um cego que finge ver.

gi.

domingo, 13 de maio de 2018

Solenidade da Ascensão

EVANGELHO – Mc 16,15-20

Naquele tempo,
Jesus apareceu aos Doze e disse-lhes: «Ide por todo o mundo
e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado.
Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome;
falarão novas línguas;
se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal;
e quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados».
E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus.
Eles partiram a pregar por toda a parte e o Senhor cooperava com eles,
confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam.

sábado, 12 de maio de 2018

Pensamentos Impensados

Golo
Golos não se discutem, diz o guarda-redes, que é uma pessoa abalizada.

Latinório
Alguns macacos têm um annus horribilis.

Bichezas
Os piolhos são animais superiores; já os resposnsáveis pelo pé de atleta são animais inferiores.

Bandas
A música que se ouve nos intestinos é tocada por um duo chamado Duo Deno.

Artérias
Os intestinos são o caminho mais perigoso que existe; curvas e contra-curvas e tudo às escuras.

Escapou ao Lineu
Quando as flores desabrocham chama-se florir; quando as folhas nascem devia chamar-se folhir.

Novo sistema
A altura a que saltam as pulgas mede-se em pulgadas.

SdB (I)

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Poemas dos dias que correm

Vivo na esperança de um gesto

Vivo na esperança de um gesto
Que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
Pois o que importa é o resto
Que esse gesto tem de ter.
Tem que ter sinceridade
Sem parecer premeditado;
E tem que ser convincente,
Mas de maneira diferente
Do discurso preparado.
Sem me alargar, não resisto
À tentação de dizer
Que o gesto não é só isto...
Quando tu, em confusão,
Sabendo que estou à espera,
Me mostras que só hesitas
Por não saber começar,
Que tentações de falar!
Porque enfim, como adivinhas,
Esse gesto eu sei qual é,
Mas se o disser, já não é...

Reinaldo Ferreira (Livro I - Um voo cego a nada)

***

Ela, a Poesia de hoje

Ela, a Poesia de hoje,
Como que foge
De si mesma e se dói
De ter sido algum dia
Meramente poesia.

Erra,
Solitária e solene,
Nos caminhos da terra,
E vitupera o céu
E o que ele encerra:
- Ah! morra! Ah! esqueça Orfeu!

Canta a grilheta, a enxada
E a madrugada
Dos dias que hão-de-vir,
E como frutos, cair
Em nossas mãos...

Fala no imperativo,
E tem por vocativo
- Irmão! Irmãos!

Mas longe,
E perto, porque em nós,
Onde uma fonte canta
Uma toada clara,
Um fauno sabe e ri,
Na pedra gasta e escura,
Um fim de riso
De ironia rara...

Reinaldo Ferreira (Livro I - Um voo cego a nada)

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