segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Do globo reflector

M. C. Escher

Não sou muito dado a visitas guiadas, e essa característica já me garantiu graçolas ou críticas. As pessoas lêem o meu ar vagamente abstraído como desinteresse, mas não é. Acontece que a maior parte dos guias nos brinda com uma profusão de informações - datas, tendências, autores - que eu não consigo fixar. Nunca fui dado a pormenores, tenho dificuldades em fixá-los e, por isso, acho preferível olhar para um conjunto de obras e perceber uma atmosfera, uma mancha, uma impressão. Não fixo de quem é este ou aquele quadro, não decoro as datas. Apanho uma ideia geral - e não quero mais do que isso.

Vem este intróito a propósito do quadro acima, constante de uma exposição sobre M. C. Escher que recomendo fortemente, e que está patente no Museu de Arte Popular até fins de Maio, parece-me. Em frente a este quadro ouvi a explicação dada por um telefone que reproduzia o que teria dito o guia. Não me lembro do que disse, pelo que não sei se serei original no raciocínio que segue.

Do conjunto de dezenas de obras, esta foi uma das que mais apreciei, embora outras houvesse mais "criativas", nas quais não sabemos se as escadas sobem ou descem, porque parecem fazer o mesmo simultaneamente. Mas esta dá azo a um devaneio: o que vemos com os nossos olhos é inferior àquilo que vemos reflectido através dos olhos dos outros. Ou seja, o espelho reflecte o meu mundo, enquanto eu só vejo o espelho.

Não sei que explicação M. C. Escher deu a este quadro, e não fixo, distraído que sou nestas coisas, o que o guia disse através de um telefone moderno. Mas talvez a ideia principal seja a da necessidade de vermos o mundo através de uma imagem reflectida: a opinião do outro, a partilha do outro, a ideia do outro. Quando Escher olhou para o globo só viu o globo. Mas depois viu melhor, mais atento - talvez até tenha visto com os olhos que temos nos ouvidos, e não só no coração como diria uma certa raposa. E nesse minuto, com todos os sentidos atentos - apenas os sentidos que bebem no / do exterior, é certo - viu Escher, que é ver-se a si próprio, viu quadros, viu um conjunto de sofás e cadeiras. Os olhos do globo mostraram a Escher o mundo que era dele, enquanto Escher só via o globo.

Não somos nada sem outro; talvez não sejamos nada sem o outro, e cada um é livre de escolher esse outro significativo - o significant other, uma expressão adulterada pelo mundo moderno que lhe inclui parceiro, animal de companhia, cônjuge ou companheiro de sacramento. Olhar é ver dotado de alma; mas ver reflectido é discernir mais, porque é ver o nosso mundo todo, é ver o que está por trás de nós como se tivesse à nossa frente. M. C. Escher sabia o que fazia.

Onde está o meu globo?

JdB


domingo, 18 de fevereiro de 2018

1º Domingo do Tempo da Quaresma

EVANGELHO – Mc 1,12-15

Evangelho de Nosso senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
o Espírito Santo impeliu Jesus para o deserto.
Jesus esteve no deserto quarenta dias
e era tentado por Satanás.
Vivia com os animais selvagens
e os Anjos serviam-n’O.
Depois de João ter sido preso,
Jesus partiu para a Galileia
e começou a pregar o Evangelho, dizendo:
«Cumpriu-se o tempo
e está próximo o reino de Deus.
Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Pensamentos Impensados

Sic...lismo
Holandês volta ao Algarve e encontra relógio.

Falem grego
Enquanto o Benfica persegue o penta, o F. C. Porto tem um que lhe deu o Liverpool.

Aforismos
Há filhos e há enteados; Jorge Jesus é fino e despenteado.

Hinos
Internacional - Avante oh vítimas da fome.
Nacional - Avante oh vítimas do fisco.

Leis
A Lei da Paridade é injusta para os homens: estes não podem parir.

Justiça à portuguesa
Ninguém sabe o que aconteceu ao Caim por ter morto o irmão; o processo deve ter sido arquivado.

Pausa
A prisão de ventre é uma pausa nas lutas intestinas.

SdB (I)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Do ADN



Carlos é cubano. Quando lhe perguntam o que não queria ser, se lhe detectassem as origens, era dominicano, argentino, francês. Quando lhe analisam o ADN, e recuam dois mil anos, Carlos percebe que tem "sangue" de países que não sabe o que são - não é não saber onde ficam, é não conhecer sequer a palavra. 

Carlos está pendurado numa ignorância legítima - a de que, olhando para a cor da pele, é dali de onde é, talvez como um bocadinho de algo parecido, nunca nada radicalmente diferente, menos ainda de locais cuja palavra é um neologismo no vocabulário dele. Entre a certeza, o gosto e um misto de desilusão e emoção há um fio de cabelo. É assim com a nossa genealogia. Falarmos numa característica que é muito da "nossa" família pode ser uma ilusão potencialmente destruidora. Todo o nosso mundo genealógico está assente em algo fino, que é sermos filhos de quem somos, que eram filhos de quem eram, que eram filhos de quem eram e assim sucessivamente. Só que, e este "só que" é mais frequente do que poderia parecer, há alguém, nesta corrente familiar, que não é filho de alguém, mas filho de outro alguém - um criado, uma criada, uma prima, um desconhecido. 

A nossa genealogia, como a genealogia geográfica do Carlos, pode não ser mais do que um desejo. Sermos filhos de, que era filho de que, era filho de e que, por isso nos torna descendentes de um papa, de um santo, de um pirata do mar báltico ou de uma princesa egípcia. Tudo se esfuma com uma análise de ADN - um bocado de cuspo arrastado por um esfregaço ou vertido num tubo de ensaio, pode ser o fim de uma ilusão - não somos descendentes de um rei, mas talvez do bobo que animava o rei... No caso do Carlos, ser descendente do que não sabia que existia.

JdB

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Vai um gin do Peter's?

COMO SE CHEGA A TERRORISTA-SUICIDA? UM FILME ALEMÃO PÕE O DEDO NA FERIDA

Chega-nos do coração da Alemanha um filme que transpõe para a tela o livro de um alemão dos quatro costados, nascido uns meses antes da II Guerra, em Maio de 1939, em Hamburgo e membro do Júri do Festival de Berlim - Hark Bohm. O realizador e co-argumentista é outro alemão, mas de pais turcos - Fatih Akin (1973-  ) - nascido na mesma cidade portuária alemã.



Em Portugal, adoptou-se um título menos feliz, de toque novelesco - "UMA MULHER NÃO CHORA"(1) - focado na legítima ânsia de justiça da protagonista - Katja. No Brasil, encontrou-se uma expressão mais forte: "EM PEDAÇOS", ainda demasiado centrado no desgosto. 

É o título original alemão - "A PARTIR DO NADA" (Aus dem Nichts) - que dá o arranque perfeito à intrincada narrativa, facilmente reduzível a mera denúncia da nova vaga racista que aumentou na Europa, quando se viu confrontada com o fluxo interminável de refugiados. Especialmente desafiador para a Alemanha, o país sonhado por quantos desembarcam no continente. Como explicava uma habitante da periferia da antiga URSS: ansiava por mudar-se para o colosso germânico, porque ali reinava a ordem, a previsibilidade. Estranho serem conceitos tão desvalorizados pela maioria dos europeus, que dá por adquirida toda a moldura de Estado de Direito que ainda prevalece no Ocidental (até ver). Porém, é miragem inatingível noutras latitudes, onde reina uma desordeira primitiva e boçal, baseada na lei do mais forte. Fogem disso e da guerra, aplicação prática da tal lei do mais forte, esses proscritos do mundo dos ricos.

Tendo por pano de fundo a dor limite de Katja, é o estado de espírito de uma Europa parcialmente em pedaços que acaba por fluir no ecrã. Gente de ânimo frágil, em contínua perda de laços afectivos estáveis e profundos. Quantos mortos-vivos por ali circulam, submergidos num dia-a-dia arrastado, desprovido de esperança. Quanta agressividade entre pais e filhos. Quanta distância entre amigos, também eles pouco encontrados. Ironicamente, a excepção é o advogado amigo da protagonista - um alemão de origem estrangeira. As feições e o nome não deixam margem para equívocos: Danilo Fava. 

Ao lado de Katja, era um sustentáculo amigo e profissional. 

A contrastar com essa maioria desmotivada, sobressaem as minorias fundamentalistas, estranhamente motivadas, que insistem em impor a toda a comunidade uma agenda destrutiva sem escrúpulos nem obstáculos. Sobeja ainda o pequeno enclave dos oportunistas obcecados pelo dinheiro e um certo carreirismo calculista, no filme ilustrado pelo assanhado advogado de defesa. Entalada entre terroristas, geralmente muçulmanos, e grupúsculos xenófobos violentos, a sociedade resiste a custo, desentusiasmada e meia perdida, apenas fincada nas leis e na ordem que as instituições do Estado ainda podem proporcionar. Enquanto o medo imobiliza quase todos, uns poucos replicam os mesmos métodos cegos e exacerbados dos extremistas de que foram vítimas, numa espiral que se autoalimenta. Nada como a raiva para se desembocar rapidamente no ódio.

A progressão negativa dos 4 D's é conhecida e tende a evoluir da pior maneira, se não houver nada de francamente positivo para contrapor a essa cavalgada derrotista. Vale a pena recordá-la: do Desgosto tende-se para a Decepção; daí, avança-se para a Desistência; e, se deixada sem freio, cede-se ao Desespero. Está formado o caldo onde medram as opções radicais, que reclamam gestos sanguinários. Os dois D's finais são os mais escorregadios, pois já se situam no terreno da vontade. 

No filme, Katja oscila entre uma amálgama de sentimentos dilacerantes, açoitados por desilusões em cadeia, que ajudam a explicar a decisão final. Tornara-se surda ao saudável contraditório, privilegiando antes as soluções sem-retorno. Trágico, mas menos raro do que gostaríamos. 

Aqui chegados [sem querer estragar o suspense do filme], surge a dúvida sobre a diferença entre uma caucasiana desesperada e qualquer imigrante-marginal que embarca facilmente em derivas kamikazes. Naturalmente, fazendo jus às hesitações que a assaltam, até vingar uma solução mortífera, mas com a lealdade possível, segundo um entendimento inquinado pela combinação explosiva de frustração e fúria. Viver tornara-se um fardo.  

É significativo o argumento focar-se naquela europeia muito loira, muito alta e esguia - exemplo perfeito da ocidental nada e criada no Primeiro Mundo. Era por mulheres desta estirpe que se batia a campanha nazi de apuramento da raça. O realizador percebeu-o bem e partiu da mesma base para descortinar a massa de que são feitas estas alemãs bonitas, livres, incrivelmente modernas, com um toque de rebeldia saleroso. Que sonhos as movem? O que faz bater o seu coração?  Quão tentador será presumirem-se superiores? Estarão fadadas para rejeitar outras raças, gentes de outros usos e costumes? 

Actriz e ex-modelo, nascida em 1976.

A personagem é desempenhada com mestria pela actriz alemã Diane Kruger, paradigma da abertura à diferença, como provou o casamento com um turco. Somava ainda uma faceta aventureira, pois esse turco tinha sido traficante de droga junto de universitários, até ser forçado a cumprir uma pena de prisão de quatro anos. Aliás, o filme abre com o casamento celebrado no cárcere. Num salto temporal de vários anos, deparamo-nos com um casal feliz, já com um filho amoroso, de óculos à Harry Porter - o Rocco. Tudo corria bem e o marido geria com talento uma empresa de viagens. Longe iam os comportamentos desviantes. 


Foi azar o alvo do atentado ter sido a agência do marido da alemã gira, que se tinha cruzado com a assassina e a bicicleta onde se escondia bomba. Tão germânica quanto ela!  Confirma-se, depois, quanto aquele racismo de inspiração neo-nazi funcionava como pobre argumentário pseudo-filosófico para alguém se sentir autorizado - talvez até "mandatado" - a decidir sobre o direito à vida. Sempre e só a vida dos outros, dispondo-se a assassinar quem chumbasse no teste.       

Sem dificuldade, a história aproxima-nos da perspectiva de Katja, suscitando simpatia, mesmo a quem desaprecie tatuagens, casamento com ex-presidiário, drogas, ainda que leves. Intencionalmente, a sua casa é moderníssima, imersa num arvoredo pacificador. As vidraças gigantescas e um traçado arquitectónico sofisticado ajudam a desmontar os preconceitos fáceis. Cultura, arte, bom gosto ou sabedoria desconhecem distinções de qualquer ordem, sejam étnicas, etárias, de sexo, poder de compra ou outra. Apenas se constata onde está, mas não onde despontará. Surge com a mesma liberdade incontível daquele Vento que sopra onde quer, muitas vezes em quem menos se espera…

Quanto mais o argumento flui, mais nos atinge a dor que brota da ferida insarável da protagonista. As recordações dos bons tempos das selfies e dos pequenos vídeos em família aumentam a amargura do Nada que a corroía, desde o atentado. Naquela hora de trevas, a corrida desenfreada de Katja ao encontro dos escombros, temendo o pior e fugindo à polícia, que não queria vivalma na zona atingida, dão bem a dimensão de um sofrimento sem consolo possível. 

Travada na zona interdita, mas igualmente amparada por um corpo policial humano.

Depois de derramado o primeiro sangue inocente, a vertigem sanguinária adensa-se continuamente: além da tentativa de suicídio com golpes nos pulsos que tingem por completo a água do banho, também a tatuagem maior leva um acrescento cor de sangue vivo. Percebemos a obsessão e tememos pela capacidade de vir a condicionar o rumo dos acontecimentos. 

Apesar de tudo o que desbravamos ao longo do filme, ficam por responder as perguntas mais misteriosas sobre os rumos de vida de uns e de outros. Como podem desembocar nos extremos opostos gente que partilha a mesma cultura? Onde Katja era exemplo de abertura em estilo alternativo, os compatriotas neo-nazis encarnavam a intolerância xenófoba, eivada de orgulho e violência. 

No fundo, embatemos de frente no mistério insondável da liberdade humana, que irrompe com frontalidade, bem à alemã. Serve de exemplo o testemunho desassombrado do pai que depõe em tribunal contra o filho transviado. Não percebia o que o fizera abraçar um ideário que o transformara num serial killer vulgar e odioso, como redundam todos. Outro exemplo de sinal positivo encontra-se no apoio generoso e incansável do advogado de defesa de Katja, que se bate pela justiça com as armas que uma democracia madura oferece… nem sempre eficazes. 

A obra recente de Akin termina em tragédia, numa praia grega batida pelo sol sob a copa aconchegante de um pinheiro manso centenário. A beleza suave da paisagem aumenta o drama de um desfecho evitável. A carnificina despoletada na Alemanha estendera metástases até ao sul da Europa. O ajuste de contas, em que todos saíram perdedores, resultou no último gesto de uma mãe mergulhada num vazio tenebroso, de onde perdera a vontade de se libertar. Nem o telefonema acalentador do amigo advogado a consegue resgatar daquele trilho justiceiro impregnado de morte. 

Face a um niilismo tão exasperado e enfurecido, o racismo ajuda, e muito, a atear uma fogueira que arde, há muitos anos, sem se ver. Sem se querer ver! Quo Vadis Europa? Quando haverá coragem para reconhecer e inverter a deriva arriscada em que nos deixámos embalar?

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Quarta)


(1) FICHA TÉCNICA:
Título original: "AUS DEM NICHTS" (A partir do nada)
Título traduzido em Portugal: "UMA MULHER NÃO CHORA"
Realização: Fatih Akin
Argumento: Hark Bohm (autor),  Fatih Akin (adaptação cinematográfica)
Banda Sonora original Josh Homme
Duração: 106 min.
  Ano:        2017
Países: Alemanha e França 
Línguas faladas: Alemão, grego e inglês
Elenco:           Diane Kruger (Katja) 
                                                Numan Acar (marido de K., Nuri Sekerci)
                                                Rafael Santana (o filho, Rocco Sekerci)
                                                Denis Moschitto (o advogado amigo, Danilo Fava)
                                                etc.
Local das filmagens: Costa grega; Alemanha, sobretudo a cidade de Hamburgo.
Prémios: Globo de Ouro e Palma de Ouro como Melhor Filme Estrangeiro; galardão do Critics' Choice Award. Diane Kruger arrecadou vários prémios de Melhor Actriz. 




quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Duas Últimas

O Evangelho de São Marcos do último Domingo, relatando a cura do leproso por Jesus, deu-me mais uma vez a oportunidade de relembrar um Santo cuja vida muito me impressiona, o Padre Damião, Jozef de Veuster por batismo, missionário católico belga nascido na Flandres em 1840.

Damião de Molokai, como também é chamado, chegou a Honolulu, Havai, com 24 anos. Poucos meses depois da chegada, foi ordenado sacerdote, passando a ser membro da Congregação dos Sagrados Corações.

O arquipélago do Havai era à época um reino "teoricamente" independente - o primeiro estado indígena não europeu a sê-lo, até 1893, quando o reino foi derrubado, tendo posteriormente sido anexado pelos EUA, que nunca reconheceram a independência, em 1898 - com graves problemas sanitários resultantes de doenças trazidas pelos europeus e que os locais desconheciam.

A lepra era uma delas, por certo a mais terrível. Os leprosos eram segregados e enviados para uma ilha do arquipélago chamada Molokai, uma colónia da morte onde não será difícil imaginar as condições de degradação, sofrimento e desordem em que as pessoas viviam.

Voluntariando-se face a um apelo do seu vigário apostólico, e conhecendo naturalmente os enormes riscos que corria, Damião chegou a Molokai em 1873. A sua obra na ilha, em cerca de 16 anos - morreu com a doença em 1889, com 49 anos - de (re)dignificação das condições gerais de vida dos seus habitantes, de promoção de actividades e da instrução, de apoio espiritual, é um exemplo absolutamente marcante de uma vida que é oferecida em prol dos outros, dos mais desfavorecidos e excluídos, dos que de facto não têm ninguém.

Foi canonizado em 2009 pelo Papa Bento XVI.

Pessoas como o Padre Damião não haverá muitas, mas há-as em todos os tempos. Inclusive nos tempos actuais, em que as situações extremas a precisar de auxílio serão diferentes mas não serão seguramente menores.

Por falar em tempos actuais, deixo-vos com 2 músicas de que gosto especialmente do recente novo álbum de Sérgio Godinho, compositor e interprete nortenho que se perpetua no tempo!

Espero que gostem das escolhas.

fq



terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Poemas para 3ªfeira de Carnaval

Um Homem e o seu Carnaval 

Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensão.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.
O pandeiro bate
É dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.

Carlos Drummond de Andrade (Brejo das Almas, 1934)

***

Soneto de Carnaval

Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.

Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.

E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim

De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.

Vinicius de Moraes

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Pensamento Impensado

Trump de vento em pôpa (fotografia do Observador)
SdB (I)

Do sexo nos recasados

Foi com alegria altruísta que recebi a notícia, de que dei conta aqui na passada 5ªfeira, que o Patriarca estabelecera orientações para admissão de “recasados” aos sacramentos, em alguns casos. Se a memória não me falha, é a terceira diocese, depois de Viseu e Braga (não sei qual foi a primeira). 

A expressão alegria altruísta não é uma construção meramente evangélica. Perto de mim, alguns amigos verão com bons olhos um caminho possível. Ou porque a declaração de nulidade não é aplicável, ou porque estes casais entendem não ir por esse caminho, a Igreja abre portas a um percurso de discernimento que, nalguns casos, poderá dar acesso a dois sacramentos que estão vedados aos casais recasados: a reconciliação e a comunhão. Como já aqui escrevi uma vez, estes casais de que sou amigos merecem-no: depois de primeiras relações (de um, de outro ou de ambos) que não correram bem, as segundas relações impuseram-se como a relação mais forte e mais duradoura: nasceram filhos, educaram-se filhos, lutou-se pelo projecto com unhas e dentes, não se desistiu, manteve-se uma prática religiosa com uma dimensão de dor, porque privada de uma parte sacramental importante e integral. Alguns casais optaram por seguir a consciência e comungam; outros optaram pela regra, e não o fazem.

A notícia deu azo a muitas notícias (e a repetição é propositada). Os jornalistas, essa classe profissional que tem tanto de elevação como de baixeza, pegou por aquilo que vende: não sendo o assassinato à machadada, não sendo a pequena corrupção do autarca desconhecido, não sendo a infidelidade do actor de telenovela, sexo e Igreja Católica é uma combinação que estimula os sentimentos mais desinteressantes, levianos - mas também reles - da opinião pública. Por outro lado, a Igreja (à qual pertenço e quero pertencer) tem uma capacidade ilimitada para se meter por caminhos difíceis quando fala do corpo. São séculos e séculos de diabolização do sexo ou do prazer, como se a satisfação que um casal sente na intimidade do acto sexual fosse infinitamente mais pecaminosa do que o prazer que esse mesmo casal sentirá a deglutir uma chanfana de cabra ou uma cabeça de garoupa. 

Sempre que falo ou penso neste tema dos recasados vem-me à ideia dois ou três casais próximos: não lhes conhecendo, obviamente, a vida íntima, estou certo de que são iguais a todos os outros. A intimidade serviu para o aumento da família, mas a intimidade serviu também para o prazer. Deitaram-se e beijaram-se e acariciaram-se. Talvez uma ou outra vez tivesse sido um acto mais carnal, porque somos seres humanos com necessidades; mas, estou certo, na maior parte das vezes foi um acto de amor, praticado por duas pessoas que se amam e que prometeram, na intimidade das suas consciências e frente a Deus sem um padre como testemunha, defender aquele (segundo) projecto contra todos os inimigos. Dar-se uma conotação negativa à vida sexual é dar-se uma conotação negativa à necessidade de equilíbrio de casais mais ou menos jovens, na força da vida ou num certo ocaso da vida. 

A Igreja lida mal com o corpo, fruto de uma tradição de séculos. O mundo mudou. Sexo é uma palavra com quatro letras, prazer tem mais duas. Pode pecar-se mais frente a uma parrilhada de marisco do que frente ao corpo desnudo da pessoa de quem se ama. Os jornalistas querem sangue, e o sangue está na relação da Igreja com o sexo, na incoerência do que defende e nos telhados de vidro que tem. Sou católico e, nalguns casos, lamento ver a Igreja em que acredito defender o indefensável - não porque deva estar em cima da onda mas porque, de facto, há posições que fazem pouco sentido hoje em dia. Com alguma classe jornalística que temos, a Igreja pôs-se a jeito, mesmo que as notícias de alguns jornais pecassem pela pela superficialidade.

Espero que este caminho seja irreversível, mesmo sabendo que deixa fracturas pelo caminho, que expõe o Papa a correntes muito antagonistas, como se nós, membros desta Igreja, nos esquecêssemos da presença do Espírito Santo na eleição, o que transforma aquele processo não 100% controlável pela vontade humana. E espero, daqui a uma semana ou daqui a um ano, ver alguns casais, de quem sou amigo, a comungar. E que a vida íntima deles seja a que entenderem ter, que não é isso que interrompe o caminho da santidade. 

JdB       

domingo, 11 de fevereiro de 2018

6º Domingo do Tempo Comum

EVANGELHO – Mc 1 ,40-45

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

Naquele tempo,
veio ter com Jesus um leproso.
Prostrou-se de joelhos e suplicou-Lhe:
«Se quiseres, podes curar-me».
Jesus, compadecido, estendeu a mão, tocou-lhe e disse:
«Quero: fica limpo».
No mesmo instante o deixou a lepra
e ele ficou limpo.
Advertindo-o severamente, despediu-o com esta ordem:
«Não digas nada a ninguém,
mas vai mostrar-te ao sacerdote
e oferece pela tua cura o que Moisés ordenou,
para lhes servir de testemunho».
Ele, porém, logo que partiu,
começou a apregoar e a divulgar o que acontecera,
e assim, Jesus já não podia entrar abertamente
em nenhuma cidade.
Ficava fora, em lugares desertos,
e vinham ter com Ele de toda a parte.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Pensamentos Impensados

Apetites
Estava com fome, comi duas cream crackers e fiquei saciado. Ainda dizem que o crime não compensa.

Leis
Os espanhóis com inveja de nós termos a operação LEX vão criar a Operación ABANICO.

Mostras
Tenho uma colecção de penas e vou expô-las numa moldura penal.

Paladares
O sabor não ocupa lugar.

Ortopedias
O joelho direito é sempre um joelho direito, mesmo quando está flectido.

Paternidades
Ficou célebre por ser pai do António Vieira.

Resquícios
Fiz umas análises e uma das informções era vestígios de sangue. Já não é mau, para quem deu sangue 39 vezes.

SdB (I)

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Dos mistérios



Volto ao tema e ao filme, pois sou um descrente da ideia de que não podemos voltar aos sítios onde fomos felizes. Sou feliz a ver o filme, não pelo filme em si, mas porque vejo a Gwyneth Paltrow e oiço, por duas vezes (para meu grande gáudio imerecido) a frase redentora que hoje aqui me traz. Neste trecho que aqui apresento, é aos 1'30". Mas já fora antes, numa situação igualmente bicuda: I don't know, it's a mistery. Mistério, essa palavra que para os gregos significava cerimónia secreta.

Llorca, o malogrado poeta espanhol, entrou-me esta semana em casa pela pena sempre inquietante (para adjectivar benevolamente) de António Lobo Antunes. E cita ele o poeta: solo el misterio nos hace vivir. Sólo el misterio. O bom senso mandará que não se ligue levianamente Llorca a Shakespeare, embora não consiga dizer exactamente porquê. Só que, neste caso, ligo Llorca a uma frase de um personagem, pelo que serei perdoado pela minha ligação aparentemente impossível, hábito que fui adquirindo e que foi apreciado por quem achava, ingenuamente, que ler-me era aprender. Talvez fosse apenas aprender-me, e mesmo isso foi chão que deu uvas. 

Volto ao tema.

Por duas vezes o personagem do filme se confronta com situações aparentemente irresolúveis. E pelas mesmas duas vezes responde quando lhe perguntam como tudo se resolverá: não sei, é um mistério. E este personagem - digo eu, que não sei exactamente se existiu - leria Llorca uns séculos mais à frente, percebendo que era o tal mistério, o que resolvia tudo, que justificava a vida. Melhor, que era a única motivação para a vida. 

A confiança no mistério da vida é o exercício da confiança na vida. A frase não é uma espécie de anagrama incompleto, apenas um jogo de palavras que exprime o essencial, aqui e agora. O personagem não sabe como tudo se resolve, mas o facto é que se resolve. Há peça, quando parecia não haver dinheiro, e há Julieta, não um canastrão com voz aflautada e barba disfarçada, mas a Gwyneth Paltrow, essa mulher cujo encanto é, para mim, uma cerimónia secreta. Se ela é muito bonita? Não sei - é melhor. 

A vida é um mistério - porque nos apaixonamos, porque nos desapaixonamos, como resolvemos alguns problemas complexos e bloqueamos a resolução de outros mais. Tuo aquilo porque vale a pena viver é esse mistério, e nada mais do que o mistério. Como qualquer mortal, há alturas em que o mistério é uma montanha inexpugnável, e o que eu queria, mesmo, era saber o caminho que me leva à glória. E não, não seria com a Gwyneth, entretida a ser odiada pela comunidade dos seus pares.

JdB  

   

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Notícias dos dias que correm *

Patriarca estabelece orientações para admissão de “recasados” aos sacramentos em alguns casos

O Patriarcado de Lisboa dispõe a partir desta terça-feira de orientações que permitem, nalguns casos que os católicos em situação matrimonial irregular possam aceder aos sacramentos.

Depois de Braga, Viseu e Aveiro, agora é Lisboa que publica normas para regular o regresso aos sacramentos de pessoas em situação irregular, no seguimento da exortação apostólica "Amoris Laetitia", do Papa Francisco.

Nas normas publicadas esta terça-feira no site do Patriarcado, D. Manuel Clemente sublinha que estas normas não devem ser entendidas como uma abertura sem restrições e universal, recordando que o próprio Papa diz que se deve aplicar apenas a “certos casos” e que coloca a possibilidade na condicional, após um processo de discernimento.

Para além da própria "Amoris Laetitia", que no já famoso rodapé do seu ponto 351 fala na possibilidade de acesso aos sacramentos após o discernimento, D. Manuel Clemente baseia-se, nesta nota, na carta enviada por Francisco aos bispos da região pastoral de Buenos Aires, entretanto publicada como documento oficial do magistério e as indicações dadas pelo vigário-geral de Roma aos padres da sua diocese.

Aos fiéis do Patriarcado de Lisboa é feito o apelo a acompanhar as pessoas em situação irregular e “verificar atentamente a especificidade de cada caso” para ver, inclusivamente, se não será possível resolver a questão através do recurso ao tribunal eclesiástico, no caso de haver a possibilidade de declaração de nulidade do primeiro casamento.

De seguida, pede D. Manuel, deve ser proposto ao casal em situação irregular a possibilidade de viver em continência, isto é, sem a prática de relações sexuais, que a Igreja considera apenas serem adequadas num contexto de casamento. Contudo, caso nas situações em que isto não se apresenta como viável ou possível, deve-se “atender às circunstâncias excecionais e à possibilidade sacramental, em conformidade com a exortação apostólica e os documentos acima citados”.

Numa citação do documento da diocese de Roma, deixa-se claro que este processo de discernimento deve ser conduzido sempre por um confessor.

“Como deve ser entendida esta abertura? Certamente não no sentido de um acesso indiscriminado aos sacramentos, como por vezes acontece, mas de um discernimento que distinga adequadamente caso por caso. Quem pode decidir? (…) Não me parece que haja outra solução a não ser a do foro interno. De facto, o foro interno é o caminho favorável para abrir o coração às confidências mais íntimas e, se se tiver estabelecido no tempo uma relação de confiança com um confessor ou com um guia espiritual, é possível iniciar e desenvolver com ele um itinerário de conversão longo, paciente, feito de pequenos passos e de verificações progressivas. Portanto, não pode ser senão o confessor, a certa altura, na sua consciência, depois de muita reflexão e oração, a ter de assumir a responsabilidade perante Deus e o penitente, e pedir que o acesso aos sacramentos se faça de forma reservada”, lê-se.

Por fim, o patriarca recorda que esse regresso aos sacramentos, caso se dê, não seja visto como o fim do processo de discernimento, mas que este continue sempre no sentido de adequar “sempre mais a prática ao ideal matrimonial cristão e à maior coerência sacramental”.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Poemas dos dias que correm

Santiago de Compostela (?), Setembro 2014 


Exactidão

Levam as frases sentido
que uma cadência lhes dá:
sentido do não-vivido
a que fica reduzido
o que, escolhido, não há.

Do imo do poder ser,
onde o não-sido se arrasta,
ouvi cadências crescer:
vaga música de ter,
na vida, quanto não basta -

quanto um sentido se entenda,
que nem verdade ou mentira.
(Que o que dele se aprenda
é como cobarde venda
para que a luz nos não fira.

Luz sem luz, brilho da treva
que tudo no fundo é;
e a certeza que se eleva
do fundo da própria treva,
de exacta que seja, é.)

Levam justiça consigo
as palavras que dissermos.
Por quanto sentido antigo,
nelas ficou por castigo
o futuro que tivermos.

Levam as frases sentido
que uma cadência lhes dá.
É justo, injusto - o escolhido?
Como quereis que, vivido,
ele não seja o que será?

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'

***

Antes do Nome

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o «de», o «aliás»,
o «o», o «porém» e o «que», esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.

Adélia Prado, in 'Bagagem'

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Pensamento Impensado

Mentirologia
Temperaturas nos zero graus; felizmente, para a semana, prevê-se o dobro.

SdB (I)

Duas Últimas

Tenho uma sugestão para as duas últimas, que são duas sugestões, de facto. Tem de ter mente aberta em relação às músicas. São duas que podem pôr-se de seguida, os genes comuns são óbvios mas tem graça a diferença. A primeira é uma gracinha que há-de achar graça; a segunda já não será tão óbvia, mas Dead Combo (e esta música em particular) é das melhores coisas que se tem feito na música portuguesa ultimamente. Opinião de leigo. Tenha mente aberta na segunda.

Foi com esta espécie de monólogo que um jovem profeta me abordou um dia destes. Depois disso já postei Roberto Carlos (o que provocou algum espanto...) mas agora aventuro-me. Assim sendo, se não gostarem reclamem, que eu encaminho a reclamação para quem de direito...

JdB



segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Moleskine

Tratamentos
Um amigo da minha idade e cujo ar não é infantil, segue um tratamento no IPO. Esta 6ªfeira uma enfermeira dirigiu-se-lhe, admito que com competência e dedicação: o amiguinho vai almoçar? No dia em que fui à Câmara Municipal de Lisboa representar a Acreditar, a senhora da recepção, armada da sua maior simpatia, tratou-me por você. Um dia depois, um médico competente e jovem, armado também da sua maior disponibilidade, tratou o meu pai, com 92 anos, por você
As três histórias acima têm importância nula quando se fala de eficácia nos diversos serviços referidos: todos, na medida da sua esfera de actuação, foram irrepreensíveis. Mas não se trata um doente por amiguinho nem um senhor de 92 anos por você. Sobretudo quando há uma alternativa simples: o tratamento por senhor.  
Eu sei que estas histórias são velhas e desinteressantes, mas há um elemento de descortesia - não intencional - que é evitável. Porquê o você e o senhor João, ou senhor António quando nas cidades há uma tradição de tratamento pelo apelido?

***

Cinemateca
Almoço na Cinemateca com amigos, de pois de uma visita - que recomendo fortemente - à Fundação Medeiros e Almeida, pese embora não ter tido inveja por 99% das peças expostas. Tudo é muito bom - mas de um gosto que me é muito duvidoso. Regresso à Cinemateca. Há um grupo que chega depois de nós: num instante sentam-se numa mesa o Francisco Louçã, o José Manuel Pureza, o Fernando Rosas e a Caterina Martins, acompanhados de duas senhoras que não identifiquei. 
Duas notas para fechar a curiosidade: (i) um perigoso assassino (há 100 anos poderia ser um perigoso anarquista), com uma bomba só, tinha pela frente a enorme possibilidade de decapitar a clique pensante do Bloco de Esquerda. (ii) Confesso que quis escutar a conversa deste grupo. Não para descortinar segredos de Estado, mas para perceber de que falavam entre si: da conquista do poder, da alteração da lei laboral, da Mariana Mortágua ou, muito simplesmente, de sopas da Bimby, do último livro deste ou daquele escritor, ou das dificuldades conjugais de algum deles? Terá esta gente conversas ligeiras?

***

Buenos Aires, Maio 2017

Livros
Leio dois livros em simultâneo (normalmente não o faço, mas o tipo de livros que é permite-o): Crónicas: Imagens Proféticas e Outras (1º volume), de João Bénard da Costa, e Pó, Cinza e Recordações, de J. Rentes de Carvalho. O primeiro, como o próprio nome indica, é uma colectânea de crónicas publicadas no Público; o outro, um diário do escritor. 
Não comparo estilos. Vou presumir que J Bénard da Costa não era escritor, e J Rentes de Carvalho é. Por outro lado, nunca conheci nem um nem outro pessoalmente, tendo uma memória esbatida - se não mesmo nula - de alguma coisa que o director da Cinemateca tenha dito em televisão. J Rentes de Carvalho caracteriza-se várias vezes: pouco social, pouco paciente, apreciador da sua solidão. Bénard da Costa não se caracteriza. E no entanto, não seria preciso o escritor falar de si para se perceber o que é: a diarística revela secura, pouca emoção. Pelo contrário as crónicas de Bérnard da Costa têm algo de luminoso, fale ele e cinema ou de um quadro com que se cruzou em Itália. Tem uma escrita bonita e suave. Talvez a escrita revele o que ele era...

Exposição
Ao longo de um ano João Alvim, um amigo relativamente recente, pintou 18 retratos, sendo que um era de um amigo, e os outros 17 de amigos, também, mas comensais numa confraria que se junta uma vez por mês para almoçar. Não resisto a transcrever uma parte da texto que acompanha a exposição, intitulada "Do ver ao olhar, retratos", porque, de facto, pintar um retrato não é só pintar um retrato:  Ver é aquilo que no homem é mecânico. Olhar é discernir, perscrutar, interpretar. Do ver ao olhar, do animal ao ser humano, da máquina ao sentimento, a distância é a mesma. 
Retratar pode ser reproduzir com mestria: uma testa alta, um nariz adunco, umas orelhas assimétricas. A tela reproduz o que todos vemos. Mas retratar pode ser olhar para alguém e descobrir nesse alguém o visível e o invisível, fazer do rosto que sorri ou olha em frente não uma pessoa apenas, mas o lugar geométrico de humores, de felicidades e desejos, de angústias e memórias. Retratar pode ser só ver, mas também pode ser construir, decifrar. O artista pinta, não o que vê, mas o que descortina quando olha - encontra um traço de carácter onde outros vêem apenas uns olhos castanhos, percebe uma fragilidade onde outros detectam apenas uma boca bem desenhada.
O que une estes dezoito retratos? Um olhar imediato verá o óbvio: figuras masculinas, todas. Anatomias díspares, assemelhando-se, no entanto, naquilo que une a espécie humana. Dezoito pessoas que formam, na singularidade de cada quadro, um universo próprio, que estabelece com os outros um conjunto não inteiramente disjunto. Dos dezoito, dezassete juntam-se regularmente numa tertúlia a que chamaram "8 de Janeiro", unidos por factores diversos que agregam subconjuntos: passados partilhados, amizades duradouras, percursos académicos comuns, memórias de tempos e de lugares, que quase todos habitam no concelho de Cascais. Acima de tudo une-os, aos dezassete, o gosto da companhia mútua, o prazer da conversa e da gargalhada ou ainda, e sobretudo, esta ideia milenar de que à mesa de uma refeição não se envelhece. 
Desta exposição não constam dezoito retratos. Esta exposição compõe-se de dezoito olhares. Foi isso que fez o pintor, para quem o pincel e a tinta e a tela não foram mais do que extensões dos olhos e da alma com que viu cada um deles.  

JdB

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