segunda-feira, 17 de julho de 2017

Dos simbolismos


Os objectos acima, fotografados deficientemente a uma hora já cansada, não são mais do que um relógio e uma caneta. Independentemente da estética dos itens ou da qualidade das marcas, não são, aparentemente, mais do que dois objectos. No entanto, foi este relógio e esta caneta que eu escolhi para, na 6ª feira passada, assinar uma escritura que define o encerramento de um capítulo da minha vida. 

Sou um homem estranhamente dado aos simbolismos. Podia ter ido sem caneta que o notário me emprestaria uma; podia ter ido sem relógio, já que o que uso hoje em dia estava a reparar. Não obstante, achei que o acto que eu ia realizar, não tendo nenhum formalismo nem solenidade, carecia de algo que lhe desse um toque pessoal, para que não se tornasse apenas numa troca comercial no qual se cede um imóvel a troco de uma verba acordada. Quem escolheu este relógio que me foi oferecido e quem me ofereceu esta caneta podem estranhar o simbolismo, mas não estranham os objectos.

Não há aqui superstição de espécie alguma. Assinaria a escritura numa 6ª feira 13, debaixo de uma escada ou com um gato preto de volta. Há apenas uma desejo de conferir uma nota afectiva a um acto impessoal. Levei artigos que prezo, dados ou escolhidos por pessoas que, na sua diferença, me são próximas. Se o acto que fui realizar constituísse uma violência emocional, de princípios ou de educação, recusar-me-ia a usar uma caneta minha. A mão que simultaneamente segurava um relógio e uma caneta é uma mão comandada por uma mente e por um coração. 

Não sei o que isto significa. Provavelmente nada, a não ser uma bizarria. Mas, mesmo reconhecendo uma certa estranheza nesta minha quase obsessão pelo simbolismo das coisas, não conseguiria viver de outra forma, porque na minha cabeça tudo se resumiria a um acto formal, impessoal, comandado por um agente formal e impessoal para quem um casamento é um contrato, um divórcio um acto, uma venda uma troca comercial. Nada é assim tão simples: são obviamente actos, mas que envolvem emoções, mais do que artigos de Códigos Comerciais ou Civis. 

A este respeito, no outro dia almoçava com um amigo a quem lhe foi oferecida uma caneta de ouro, parece-me, que só cumpriu um único acto: celebrar o contrato que oficializava a passagem / venda para a câmara de Portalegre do espólio religioso de José Régio. O simbolismo desta caneta é fortíssimo - só serviu para um único acto, ao qual foi dada a solenidade merecida.

JdB 

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