quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Vai um gin do Peter’s? 

É, sobretudo, na arte que a lenda da Bela Adormecida se mostra certeira, quase à letra.

Uma das Belas, acordada há um par de anos, foi a obra milenar encoberta por um reboco espesso, a esconder (e preservar, num certo sentido) os mosaicos deslumbrantes da Basílica da Natividade, no povoado remoto de Belém, em Israel. Remoto para os peregrinos, turistas e gente bem intencionada, mas exposto aos projécteis perdidos das intermináveis guerras israelo-árabes. No célebre conflito de 1967, um morteiro fez estragos no tecto. Em 2002, as tensões com palestinianos deixou marcas de balas cravejadas por todo o lado. Em 2014, nos confrontos bélicos na Faixa de Gaza, a vítima de um foguete seria um membro da equipa italiana de restauro – Giorgia Zurla. Com humor e desportivismo, observava que lhe valera a «proteção de Deus», uma vez que não era abrangida pelo sistema anti-míssil israelita, conhecido por Cúpula de Ferro.

A história da Basílica carrega as cicatrizes do percurso atribulado de Jerusalém e imediações. Começou por ser erigida no séc. IV, sobre a concavidade onde teria nascido Jesus, por iniciativa do imperador romano Constantino. Dois séculos depois, rebeldes samaritanos arrasaram-na. Mais tarde, foi reerguida a mando de outro imperador de Roma – Justiniano. Seguiram-se mais razias por abalos sísmicos e uma sucessão perniciosa de conquistas militares. O arco da sua porta altiva acabou por ficar reduzido a 1,2m de altura, para impedir a entrada de cavaleiros, lembrando o tempo dos cruzados. Isso valeu-lhe o nome de «Porta da Humildade».


Inspirado na reportagem da NATIONAL GEOGRAPHIC de Maio de 2016, assinada por Anne-Marie O’Connor, 
autora do livro «The Lady in Gold», dedicado ao famoso retrato que Klimt pintou da milionária judia de Viena – Adele Bloch-Bauer. 

A trama de mosaicos formada por vidro, madrepérola, pedras semi-preciosas da zona e folhas de ouro e prata, data do séc. XII e foi patrocinada pelo rei cruzado Amalrico I e pelo imperador bizantino Manuel Commeno I. Aquelas composições, de acentuado cariz bizantino, lembram Sicília, Florença e Ravena, além dos característicos padrões florais simétricos da arte muçulmana, em concreto os da mesquita Al Aqsa de Jerusalém, que calha a ser a terceira mais sagrada do Islão.

Uma jóia em fundo de ouro luminoso

O artista terá sido Basilius, que assinou as peças em latim e siríaco. É-lhe também atribuída a autoria das ilustrações do «Saltério» concebido para a  rainha Melisende de Jerusalém (séc. XII).

As figuras gigantescas dos murais estão estrategicamente inclinadas para maximizar o seu impacto visual, a partir do chão.

A primeira figura do anjo de 2,5m de altura, que deu alento à caça ao tesouro


Foi emocionante para a jovem especialista da equipa italiana – Silvia Starinieri, de apenas 28 anos – vislumbrar um contorno imprevisto, ao passar a máquina termográfica sobre o reboco das paredes. Mal conseguiram remover essa cobertura, com mil cuidados, surgiu uma face cintilante de madrepérola:

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Nas palavras do líder da equipa, Piacenti: «Finalmente o belo anjo, após séculos de escuridão, pode olhar para baixo, sobre a multidão de peregrinos».


Em 2013, a pressão do presidente da Autoridade Palestiniana, M.Abbas, foi crucial para as comunidades cristãs se entenderem e a equipa de restauro poder iniciar os trabalhos. Já o primeiro alerta para o risco de colapso das vigas viera dos palestinianos, depois secundados pelas Nações Unidas que, em 2012, declararam em perigo iminente a Igreja classificada como Património Mundial.

Nos murais restaurados, visualizam-se cenas bíblicas com Jesus e sua Mãe, os apóstolos e ainda santos posteriores, patriarcas, animais da época, incluindo um camelo bebé, que faz as delícias da equipa, pelo sentido de humor do artista de eras tão recuadas.

Com desvelo, os restauradores não se pouparam a esforços para desencantar madeira semelhante às vigas originais, feitas de cedro do Líbano, da era de Justiniano. Encomendaram também toros dos Alpes, de onde provinham os originais do séc. XV, já parcialmente danificados.

Até no chão, a trama pictórica se entrelaça artisticamente. Por falta de verbas, não houve ainda possibilidade de cobrir todo o original com uma placa de vidro que deixasse ver a obra, protegendo-a em simultâneo. Dos cerca de 10 milhões de dólares já gasto no restauro, um décimo proveio de doações privadas, onde se contam cristãos e palestinianos-muçulmanos, de nacionalidades muito variadas.



Pouco a pouco, o trabalho de formiga dos especialistas tem operado milagres, reconhecidos internacionalmente. Cada figura inteira que reaparece é olhada com pasmo, por ter saído ilesa de tantas vagas destrutivas. Sem ilusões, a equipa celebra os 20% de área de mosaicos, literalmente, renascida das cinzas, ciente de que a maior porção é irrecuperável. Como irrecuperável se tornou o valioso património de arte sacra e laica, acintosamente, erradicado pelo Daesh, no Iraque, na Síria e demais sítios onde pôde hastear a sua bandeira negra.

Se arrepia o rasto de vandalismo hoje perpetrado, também arrepia – mas em sentido inverso, por comover – a réplica construtiva que nunca desiste, embora a tentação fosse (seja!) abissal: «No Iraque estamos a testemunhar a destruição de lugares santos», diz o Ministro palestiniano Ziad Al-Bandak, conselheiro presidencial para as questões com a Cristandade, explicando que «Estamos a tentar proteger o berço do cristianismo. Como eu disse ao papa Bento, sou de uma família que estava aqui ao tempo do nascimento de Cristo».

Respeitar o ser humano exige e pressupõe respeitar a História. Ainda bem que a nossa época conhece guardiãs à altura das dificuldades, quantas vezes de proveniências imprevistas.


Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para uma Quarta daqui a 2 semanas)


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